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Davos aposta em negociar com "inimigos de ontem", Kiev e Síria testam se o Ocidente engaja ou isola

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Davos aposta em negociar com "inimigos de ontem", Kiev e Síria testam se o Ocidente engaja ou isola

Em Davos, ministros e enviados diplomáticos discutem um plano de garantias de segurança de 10 anos para a Ucrânia antes que Kiev sente à mesa com Moscou. Ao mesmo tempo, a comunidade internacional se divide sobre se reconhece o novo governo sírio que acaba de derrotar Bashar al-Assad após 13 anos de guerra. Os dois dramas revelam uma pergunta central: o Ocidente quer negociar com quem perdeu, ou vai isolá-lo?

A lógica por trás das garantias de 10 anos é simples. Os diplomatas trabalham com a ideia de que acordos de paz fracassam se um lado teme ser invadido de novo assim que a caneta seca. A Ucrânia exige comprometimento de longo prazo, não promessas vagas de apoio, antes de ceder território ou aceitar uma trégua. O desenho proposto funciona como um escudo: durante uma década, o Ocidente se comprometeria a defender Kiev se Moscou voltasse a atacar. É uma forma de dizer "vocês podem negociar porque não vão ficar sozinhos depois".

A Síria, porém, segue um script inverso. Após 13 anos de guerra civil brutal, rebeldes derrubaram Assad em dezembro. O novo governo quer ser reconhecido e que as sanções internacionais sejam levantadas. O dilema é claro: engajar com o novo regime aposta que ele será estável e diferente do velho; isolá-lo aposta que qualquer governo sírio sem Assad será sempre um risco. A Europa está dividida. Alguns países sinalizam abertura ao diálogo; outros, cautela.

O que une as duas histórias é a aposta contraditória que o Ocidente está fazendo. Em Kiev, aposta que Moscou, derrotada militarmente, vai aceitar um acordo de paz com garantias de segurança ocidentais. Na Síria, teme que rebeldes vitoriosos na guerra civil saibam muito pouco de como governar. Um lado perdeu a guerra mas ganha a mesa de negociação; o outro ganhou a guerra mas enfrenta desconfiança de quem pode ajudá-lo a reconstruir.

Os próximos passos dependem de quanto o Ocidente está disposto a investir em duas apostas simultâneas. Em Kiev, tudo depende de Moscou aceitar sentar. Na Síria, tudo depende de Washington, Europa e até adversários regionais como Turquia e Irã chegarem a um mínimo de acordo sobre como o país ressurge. Nenhum resultado é garantido.

Por que importa: A guerra na Ucrânia afeta o preço de grãos e fertilizantes, que impactam a inflação da comida no Brasil. A Síria produz pouco que nos atinja direto, mas seu colapso deixa espaço para grupos extremistas que complicam guerras maiores no Oriente Médio, reduzindo a previsibilidade global e mexendo com preços de commodities. Um Ocidente enfraquecido na diplomacia é um Ocidente menos capaz de manter a ordem nos preços que chegam ao supermercado brasileiro.

Fontes