O Japão elegeu um novo primeiro ministro num momento em que o país enfrenta dois dilemas que se reforçam mutuamente: a queda do iene no câmbio global e o envelhecimento da população, que esvazia a mão de obra e comprime as receitas. A escolha redefine tanto a política de defesa, num contexto de rivalidade crescente entre EUA e China no Pacífico, quanto a política monetária, que afeta o dólar que brasileiros acompanham na bomba e nas contas.
O iene fraco é sintoma de uma desconexão: enquanto o banco central dos EUA mantém juros altos para combater inflação, o Banco do Japão (BOJ) mantém taxa próxima de zero há décadas. Isso afasta investidores estrangeiros da moeda japonesa, que piora a cada semana. O novo primeiro ministro herda perguntas sem resposta: quando e como o BOJ vai sair dessa posição? Vai acelerar a alta de juros ou seguir cauteloso? As respostas mexem com fluxos globais de dólar.
A demografia agrava o aperto. O Japão perde cerca de 800 mil pessoas por ano; em 2070, serão menos 30% de habitantes. Isso reduz consumo interno, aumenta custo de pensões e comprime arrecadação. O novo governo precisa escolher: aumentar impostos (impopular), cortar gastos (recessivo) ou aceitar déficit maior (desconfortável para um país já endividado). Cada opção afeta a trajetória do iene.
Na defesa, o desafio é ainda mais imediato. China expande capacidade militar no Pacífico; Coreia do Norte acelerou testes de mísseis; Rússia se aproxima de Pequim. O Japão, protegido pela aliança com os EUA desde 1945, agora discute se deve rearmar, expandir orçamento militar, que já cresce, e talvez adquirir capacidade de ataque ofensivo, não só defesa. Isso tem custo fiscal e simbólico (o país recusa armas convencionais desde a Segunda Guerra). O novo PM precisará alinhar essa mudança com Washington e com o eleitor doméstico.
Os mercados globais observam porque as decisões japonesas repercutem na precificação do dólar. Se o BOJ acelerar a alta de juros, atrai capital de volta pro iene e reforça o dólar (já que aumenta o diferencial de taxa com os EUA). Se o novo governo gastar muito em defesa sem aumentar receita, o déficit fiscal piora, o iene enfraquece mais e o dólar fica mais caro, exatamente o oposto.
Por que importa: o Brasil importa energia e minérios em dólar. Quando o dólar sobe, tudo fica mais caro na pompa: combustível, fertilizante, componentes para indústria. A inflação sobe, o Banco Central pode apertar juros, e a economia perde fôlego. As decisões do novo primeiro ministro japonês, sobre monetária, defesa e fiscal, vão ripple pelo câmbio daqui nas próximas semanas.
