Os EUA ameaçam impor novas tarifas contra Canadá e México, repetindo a jogada que marcou a crise comercial de 2018. A pressão traz de volta o mesmo fantasma daquele período: inflação mais alta e cadeias de produção bagunçadas, afetando desde o preço dos alimentos até o custo de peças de carro que chegam por aqui.
A história se repete porque funciona. Quando Donald Trump ameaçava tarifas (taxas extras sobre importações), os países recuavam em negociações comerciais. Agora o script volta. Canadá e México enviam cerca de um terço de todas as importações dos EUA, movimento que dá tremendo poder de barganha a Washington. Mexer nessa relação é como ameaçar desligar uma tomada que alimenta meia fábrica americana.
O problema não é só bilateral. O Canadá fornece petróleo e alumínio aos EUA. O México produz eletrônicos, têxteis e peças automotivas que abastecem a manufatura americana de ponta a ponta. Quando uma tarifa sobe, o fabricante americano paga mais pela matéria-prima, o custo sobe na ponta do consumidor, e a inflação reaparece. Isso já aconteceu em 2018: preços de alimentos, roupas e máquinas dispararam. A Reserva Federal teve de manter juros mais altos por mais tempo.
O acordo vigente entre os três países, o USMCA (tratado que substituiu o NAFTA em 2020), foi justamente pensado para evitar surpresas. Mas o USMCA é só um papel se a administração de Washington ignorar as regras. É o que está na mesa agora. A ameaça é credível porque Trump já fez isso antes e porque o Congresso americano concede ao presidente poder amplo sobre tarifas.
México e Canadá tentarão negociar, oferecendo contrapartidas em outros setores ou aceitando termos mais duros em temas que Washington pressiona (imigração, segurança, investimentos em tecnologia). Mas o histórico de 2018 mostra que quando a Casa Branca usa a tarifa como alavanca, cede quem tem menos espaço de manobra. Dessa vez, a incerteza já começou a minar a confiança em mercados globais.
Por que importa: o Brasil se liga nesta briga porque depende do comércio com os EUA e de cadeias que passam por América do Norte. Se tarifas explodem, multinacionais cortam custos em outros mercados, incluindo o Brasil. Demanda por commodities cai, o real enfraquece (porque menos dólares entram), e produtos importados, do combustível ao eletrônico, ficam mais caros. Para quem compra um carro, uma peça vinda de fábrica no México pode ter tarifa adicionada e chegar mais cara por aqui. Para quem trabalha em logística ou comércio, a incerteza já começa a piscar no radar.
