Um alto-fogo mantém Gaza em relativa calma após semanas de bombardeios intensos. A troca de prisioneiros começou conforme o acordo, primeiro lote de reféns israelenses e detentos palestinos saíram de suas celas nos últimos dias, marcando o início da fase 1 de um plano de três etapas. Agora, em Doha, mediadores cataríes e egípcios negociam a fase 2, o momento que dirá se a pausa na violência se transforma em paz de verdade ou se o ciclo de escalada retorna.
A estrutura do acordo funciona assim: cada fase dura semanas e envolve libertação de prisioneiros de ambos os lados, entrada de ajuda humanitária e, teoricamente, construção de confiança para conversas maiores. Mas a história de Gaza nos últimos 20 anos mostra que cada trégua é frágil. A diferença desta vez é que o Catar e o Egito não abandonaram a mesa, ambos os países mantêm pressão diplomática diária sobre Israel e Hamas para cumprir compromissos. Sem essa mediação constante, o acordo teria desabado nos primeiros dias.
O nó está na fase 2. Enquanto a fase 1 é principalmente sobre libertações (tarefa árdua mas concreta), a fase 2 exigirá conversas sobre reconstrução de Gaza, quem vai governar o território depois da guerra e como evitar que o Hamas volte a se armar. Essas questões tocam na soberania israelense, na legitimidade palestina e nos interesses regionais do Irã e dos aliados de Israel, pontos que histórica mente explodem nas mesas de negociação.
O calendário é apertado. As mediações em Doha correm contra o relógio porque cada dia sem progresso alimenta radicais dos dois lados. Dentro de Israel, há pressão política para retomar operações militares se o Hamas não aceitar termos considerados vitória. No lado palestino, qualquer sinal de fraqueza nas negociações fortalece grupos que rejeitam acordos. O Catar e o Egito sabem disso e por isso apostam em velocidade, a meta é amarrar a fase 2 antes que a dinâmica política doméstica de cada ator exploda a mesa.
O que torna este momento diferente de tentativas anteriores é que, pela primeira vez, há um mediador sunita (Catar) e um mediador geograficamente central (Egito) trabalhando juntos com apoio dos EUA. Historicamente, essas negociações ficavam presas a posições irredutíveis. Desta vez, há espaço, frágil, mas real, para avanço. A questão é se dura o suficiente.
Por que importa: Um colapso em Gaza reabre conflitos regionais que afetam diretamente o Brasil. A escalada no Oriente Médio pode fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo global, o que sobe o preço do barril e empurra a gasolina na bomba e a inflação nas contas do brasileiro. Além disso, uma guerra sem trégua atrai intervenção do Irã e de seus aliados, incluindo grupos que operam contra navios no Mar Vermelho e ameaçam rotas comerciais que conectam o Brasil a mercados asiáticos. A paz em Gaza, por frágil que seja, interessa ao portador de cartão de crédito e ao trabalhador que abastece o carro.
