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Quando o BRICS tira o pé do freio

GEOPOLÍTICA
Quando o BRICS tira o pé do freio

O bloco de economias em desenvolvimento que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul está deixando de sussurrar e começando a agir contra a hegemonia do dólar. Na última semana, o BRICS consolidou sua expansão para novos membros e abriu as discussões sobre um sistema de pagamentos paralelo que permitiria aos seus países negociar sem depender da moeda americana. O movimento revela uma pressão estrutural: economias grandes buscam alternativas enquanto enxergam fraqueza no Ocidente.

A China, motor do bloco, cresceu 5% em 2024 e bateu a meta mínima estabelecida pelo governo, mas o alívio é apenas técnico. Por trás do número existe um consumo doméstico fraco e deflação que assustam Pequim. Isso empurra a potência asiática a se mexer na frente geopolítica, porque não consegue contar com a demanda interna nem com as importações ocidentais atingidas pelas incertezas de Washington. Um sistema de pagamentos próprio no BRICS soa abstrato, mas traduz uma mensagem concreta: "Não precisamos mais de vocês como intermediários".

O contexto é claro. Donald Trump sinalizou tarifas agressivas contra importações, criando incerteza em todas as cadeias globais. Já há pressão nos fornecedores de chips para os EUA depois que a inteligência artificial avançou (a empresa DeepSeek chinesa mostrou que é possível construir modelos sofisticados com menos recurso do que se imaginava). O que antes era apenas especulação agora virou realidade: o Ocidente não é mais o único lugar onde se inova nem o único mercado relevante.

O BRICS não é monolítico. Rússia segue isolada por sanções, Índia tem rivalidades regionais com a China, Brasil quer equilíbrio. Mas o incômodo é comum a todos: financiar comércio em dólares significa pagar taxa de câmbio, sofrer volatilidade de mercado americano e aceitar que Washington veto transações quando bem entender. Uma moeda paralela ou um mecanismo de clearing (liquidação de trocas) reduziria essa fricção.

O sistema de pagamentos não precisa ser uma moeda única, tipo euro. Pode ser bem mais simples: um acordo que permite que um país venda para outro em reais, rúpias ou yuan, sem passar pelo dólar. Rápido, mais barato, sem intermediário. China e Rússia já fazem comércio em suas moedas há anos. O BRICS agora quer padronizar e ampliar isso.

Por que importa: Brasil exporta commodities para a China em dólar. Se surgir um mecanismo que permite trocar soja, ferro e café diretamente por yuan, haverá menos custo de câmbio para nossas empresas e maior estabilidade nas receitas em moeda estrangeira. Um dólar mais fraco também alivia a pressão inflacionária aqui dentro, porque petróleo, alimentos e componentes importados ficariam menos caros. Além disso, o Brasil quer liderar essa discussão dentro do BRICS, reforçando seu peso geopolítico, o que abre portas para influenciar as regras do jogo, não apenas acatá-las.

Fontes