A Alemanha entra em campanha eleitoral antecipada numa encruzilhada. O colapso da coalizão de governo forçou o canceler Olaf Scholz a antecipar as urnas para fevereiro, transformando a votação num referendo sobre como lidar com migração, crise econômica e o papel alemão numa Europa cada vez mais isolada. O resultado vai redefinir o peso da maior potência industrial europeia num mundo rachado por guerras, tarifas americanas e competição com China e Rússia.
A crise começou quando Scholz demitiu o ministro das Finanças Christian Lindner em novembro, acusando-o de sabotar o orçamento em tempos de recessão. Sem maioria no Bundestag, a câmara baixa do parlamento alemão, Scholz perdeu força para governar. Mas o timing não é aleatório: eleições antecipadas agora colocam na berlinda dois temas que explodem nas ruas e nas enquetes alemãs. Primeiro, a migração. A Alemanha registrou cerca de 1,2 milhão de pedidos de asilo em 2023 e 2024 combinados, alimentando apoio à extrema direita. A AfD, partido de extrema direita, aparece nas pesquisas recentes com 20% a 23% das intenções de voto. Segundo, a economia. A inflação desacelerou, mas os preços da energia seguem elevados por causa das sanções à Rússia e da dependência do gás russo que não volta. O desemprego subiu e a indústria encolhe.
Friedrich Merz, líder da CDU (conservadora), é o favorito para formar o próximo governo. Sua posição sobre migração é mais dura que a de Scholz, promessas de maior controle nas fronteiras e restrições para requerentes de asilo. A estratégia da CDU aposta em capturar votos da AfD sem abraçar o extremismo. Mas Merz também fala em apoio à Ucrânia e manutenção da aliança com os EUA, dois pontos que dividem a direita alemã. A extrema direita e a esquerda radicalizados se opõem ao envio de armas para Kiev, enquanto a CDU defende a ajuda militar.
A eleição alemã importa porque a Alemanha carrega a Europa nas costas. O país é o motor econômico da União Europeia, responsável por 18% do PIB do bloco. Um governo mais conservador e defensivo em Berlim pode frear investimentos em transição energética e defesa comum europeia, justamente quando a UE enfrenta pressão das tarifas americanas de Donald Trump e precisa gastar mais em armamentos. A fragmentação política alemã (CDU, SPD, Verdes, AfD, Esquerda radical) dificulta formar coalizões estáveis, o que paralisa decisões europeias.
Para o Brasil, o impacto é duplo e real. Primeiro, economicamente: uma Europa mais fraca significa menor demanda por commodities brasileiras e competição maior por mercados globais num mundo em recessão. Segundo, comercialmente: se a UE não conseguir uma resposta unificada às tarifas americanas, ela tende a buscar acordos bilaterais ou protecionistas, fechando portas para produtos brasileiros. O dólar ficará mais volátil, afetando a inflação aqui. Uma Alemanha paralisada é uma Europa paralisada, e uma Europa paralisada deixa espaço para China e Rússia expandirem influência, cenário que aumenta incerteza nos mercados e pressiona o bolso do brasileiro.
