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Trump aperta o cerco na fronteira com tarifas e deportações

GEOPOLÍTICA
Trump aperta o cerco na fronteira com tarifas e deportações

O presidente americano anunciou tarifas de 25% sobre México e Canadá a partir de fevereiro e fechou um acordo com a Venezuela para repatriar migrantes. Não são duas crises paralelas: são duas alavancas de uma mesma estratégia, usar a pressão econômica e militarizada sobre a vizinhança continental para extrair concessões diplomáticas. O efeito ricocheteará até o Brasil.

As tarifas sobre os dois vizinhos mais próximos dos EUA representam uma escalada sem precedentes na política comercial americana recente. México e Canadá são sócios pelo Tratado de Livre Comércio (TLCAN) desde 1994, ou seja, um ataque tarifário aqui não é brincadeira, é ruptura de uma arquitetura que moldou três décadas de comércio na região. A ameaça é concreta: já move mercados e força negociações em tempo real.

Paralelo a isso, a Venezuela concedeu o direito de repatriar migrantes em voos americanos controlados. É uma vitória diplomática para Washington numa região que fugiu de seu controle nos últimos anos. Mas há um padrão: Trump está utilizando duas moedas, tarifas e segurança fronteiriça, para impor agenda doméstica com cobertura internacional. Militares ganham papel expandido em detenção e deportação nas fronteiras americanas, o que sinaliza que a administração vê a questão como de segurança nacional, não só imigração.

O Brasil sente isso de duas formas. Primeira: México é nosso concorrente direto em setores como manufatura automotiva, têxtil e agrícola de exportação. Se o México sofre tarifas retaliativas e sua moeda desaba, os preços de seus produtos caem e nossos exportadores perdem competitividade nos mercados globais. Segunda: a volatilidade tarifária americana afeta a confiança de investidores em toda a região. Quando Trump fala em tarifas generalizadas, o dólar sobe, os mercados emergentes vazam capital e o custo de financiamento fica mais caro para um país que já não sobra em crédito barato.

A questão mais ampla é que Trump está sinalizando disposição para romper com acordos comerciais estabelecidos se não conseguir o que quer. Isso afeta não só México e Canadá, mas o clima de previsibilidade que o comércio internacional precisa para funcionar. Brasil exporta eletrônicos, alimentos e insumos para os EUA, qualquer escalada tarifária que atingisse o comércio bilateral teria impacto imediato na inflação doméstica e no emprego nas cadeias exportadoras.

Por que importa: Tarifas americanas sobre vizinhos mexem no câmbio da região, encarecendo importações brasileiras (matérias-primas, peças, combustível) e desestabilizando a demanda externa pelos nossos produtos. Uma América do Norte fragmentada comercialmente é ruim para o Brasil, tanto para vender quanto para comprar. Além disso, o precedente de Trump usar tarifas como moeda de negociação diplomática abre espaço para que ele faça o mesmo conosco se algum tema (desde comércio até votação na ONU) não agradar. Isso eleva o risco político sobre o real e a inflação.

Fontes