A Europa está gastando dezenas de bilhões em dois projetos que parecem desconectados, mas revelam a mesma obsessão: construir infraestrutura, física e regulatória, para não ficar isolada entre os EUA e a China. França e Itália inauguraram nesta semana o túnel ferroviário do Monte Cenis, ligando Lyon a Turim com trens de alta velocidade. Paralelamente, a União Europeia avança em regras que obrigam plataformas digitais a exibir mais conteúdo europeu e penalidades severas para quem desobedecer. São apostas milionárias na mesma aposta: um bloco coeso.
O túnel de 57 quilômetros custou 30 bilhões de euros e levou 30 anos para ficar pronto. A obra foi um pesadelo político, levantou crises orçamentárias bilaterais, virou símbolo de desperdício em campanhas italianas, e quase foi cancelada várias vezes. Mas está lá agora, encurtando a distância entre dois dos maiores polos de consumo e manufatura da Europa. Não é romântico: é logística. Quanto mais rápido a carga viaja internamente, menos a Europa depende de corredores controlados por terceiros (como rotas marítimas vulneráveis).
O mesmo raciocínio move a regulação de plataformas digitais. Emissoras europeias estão cobrando sanções contra gigantes como Netflix e YouTube se exibirem menos de 20% de conteúdo produzido na Europa. A meta não é proteger creches de produção cinematográfica, é garantir que o fluxo de dados e narrativas que moldam opinião circule dentro do bloco, não por conta de algoritmos americanos. Uma Europa fragmentada digitalmente é uma Europa fraca. Uma Europa com trilhos interligados e regras próprias é uma que negocia.
O desafio é gigantesco. O túnel custou tanto que ainda mobiliza crítica doméstica; as regras de conteúdo têm execução incerta e enfrentam resistência de plataformas. Ambos os projetos revelam o tamanho da tarefa europeia: costurar uma união que compete com economias de escala americanas e investimento estatal chinês, sem ter nenhuma das duas. A resposta europeia é lenta, cara, e depende de coordenação política que frequentemente falha.
Mas a direção está clara. Cada túnel, cada regulação, cada acordo bilateral é um fio a mais na trama que a Europa está tecendo para evitar cair entre as cadeiras da próxima década.
Por que importa: O Brasil é um ator periférico num mundo onde blocos coesos (UE, Indo-Pacífico liderado por EUA) ganham espaço. Quanto mais Europa investe em autofiabilidade, transportes, dados, manufatura, menos depende de rotas globais voláteis e mais impõe suas regras. Isso afeta desde o preço de componentes eletrônicos que o Brasil importa até as regras de negócio que multinacionais aplicam por aqui. Uma Europa forte é um Europa que não vai ceder pressão de Washington ou Pequim para abrir mercados brasileiros em troca de privilégios próprios.
