A Ucrânia pediu oficialmente 200 mil soldados europeus como garantia de segurança em um eventual acordo de paz. Ao mesmo tempo, a Alemanha enfrenta eleições em fevereiro com a extrema direita em alta nas pesquisas. Juntos, os dois cenários forçam uma conta que a Europa vinha adiando: pode ela se defender sozinha, ou segue presa à guarda-chuva americano?
O pedido de Volodymyr Zelensky não é simbólico. Conversar sobre cessar fogo na Ucrânia sem garantias sobre quem a protege depois não sai do papel. E se a Europa quer ter voz nesses acordos, precisa estar disposta a colocar gente no terreno. Duzentos mil soldados é um número grande, mas factível para uma União com 450 milhões de habitantes. O problema não é matemático. É político.
A ascensão da extrema direita alemã complica tudo. A AfD, que sobe nas pesquisas enquanto os partidos tradicionais perdem espaço, questiona gastos com defesa e coalizões ocidentais. Não é um partido isolado: reflete o cansaço de eleitores com inflação, migração e uma conta de segurança cada vez mais cara. Se a AfD ganhar força real nas eleições de fevereiro, o que Berlim está disposta a fazer na Ucrânia e na OTAN muda. A política doméstica alemã sempre reverbera na europeia.
O nó aperta porque a Europa está quebrada. A guerra custou recursos que governos não tinham; a crise energética passou, mas os orçamentos seguem apertados. Aumentar gastos com defesa significa cortar em saúde, educação ou infraestrutura. A França tem suas próprias tropas prontas para atuar na Europa, mas França não é toda a Europa. Polônia, Bálticos e Europa do Leste querem segurança agora; países ricos do oeste veem a conta e hesitam.
O cenário de fundo é claro: Donald Trump voltou à Casa Branca com sinais de que os EUA podem redirecionar sua atenção. A OTAN existe há 75 anos com Washington pagando a conta. Se a política americana mudar de verdade, a Europa terá 18 meses, talvez dois anos, para montar uma alternativa crível. Duzentos mil soldados, defesa cibernética coordenada, indústria de armamentos independente. Tudo junto, de uma vez.
Nenhum governo europeu quer dizer em voz alta que já começou a sair da dependência americana. Mas é o que está acontecendo nas mesas de negociação sobre a Ucrânia, nas cúpulas da OTAN e agora nas campanhas eleitorais que definem quem manda em Berlim nos próximos quatro anos.
Por que importa: O Brasil exporta agrícola para a Europa e importa equipamento, tecnologia e capital de lá. Uma Europa fragmentada, com crescimento lento e gastos crescentes em defesa, é uma Europa que compra menos, investe menos e custa mais caro. Além disso, se a transição americana de segurança for real, a geopolítica global fica menos previsível. Mais competição no comércio, menos parceria em tecnologia, mais oscilação no dólar e nas taxas de juros internacionais que afetam o crédito brasileiro.
