Olh no Mundo
Geopolítica & Economia
O Essencial de Hoje +++
Brent em US$ 107.40/bbl·Risco baixo·Brent em US$ 107.40/bbl·Risco baixo·
Oriente Médio·3 min de leitura

Gaza: a trégua e a disputa silenciosa sobre quem manda no dia seguinte

ORIENTE MÉDIO
Gaza: a trégua e a disputa silenciosa sobre quem manda no dia seguinte

O alto o fogo entre Israel e Hamas entrou em vigor nesta semana, abrindo espaço para a liberação gradual de reféns e prisioneiros palestinos. Mas enquanto as armas esfriavam, três países já corriam nos bastidores: Turquia, Catar e Egito começaram a desenhar projetos de reconstrução de Gaza, cada um com suas próprias ambições políticas. O cenário lembra a Síria após a queda de Bashar al-Assad, onde o fim dos combates abriu uma corrida pelo poder que ninguém sabe como vai terminar.

A história não é nova em conflitos do Oriente Médio. Quando a guerra para, a reconstrução vira moeda de poder. Quem controla os contratos, os investimentos e a infraestrutura futura acaba mandando na região. No caso de Gaza, a disputa é entre Ankara (que vê na Palestina uma ponte para sua liderança regional), Doha (que já tem experiência em financiar projetos árabes) e Cairo (que historicamente arbitrou negociações palestinas). Nenhum deles quer que Gaza vire um vácuo de poder dominado por rivais.

O Catar já mobilizou recursos e força técnica para discutir reconstrução com autoridades palestinas. A Turquia, por sua vez, sinalizou disposição em participar de projetos infraestruturais. O Egito, geograficamente mais próximo, tenta garantir seu papel de mediador na mesa. Uma cúpula árabe está marcada para fevereiro, momento em que essas negociações devem ganhar formalidade e recursos concretos. O risco está justamente na execução: se os três países não alinharem prioridades, a reconstrução vira palco de competição que pode prejudicar os palestinos.

A Síria é o aviso que ninguém quer ouvir. Lá, o fim da guerra civil (com a queda recente de Assad) abriu um vácuo onde potências regionais, cada uma com seu interesse, tentam influenciar o novo governo. Turquia quer segurança nas fronteiras, Irã quer poder político, outros atores buscam oportunidades. O resultado é instabilidade: transições mal engatadas em conflitos do Oriente Médio tendem a arrastar negociações, gerar desconfianças e até reviver tensões. Gaza não precisa repetir esse roteiro.

A trégua em Gaza é frágil porque depende de detalhes: um incidente isolado, como um disparo acidental ou uma acusação de desvio de recursos, pode derrubá-la. E enquanto a reconstrução avança em paralelo, a política local palestina também muda. Quem financia e coordena os projetos ganha influência sobre a vida civil, as eleições futuras e o direcionamento político. Essa é a parte que preocupa agentes internacionais: a reconstrução não é apenas obra pública, é jogo de poder.

Por que importa: A estabilidade em Gaza afeta o preço do petróleo Brent no mercado global e, consequentemente, o preço do diesel na bomba brasileira. Uma trégua que desanda eleva a tensão no Golfo Pérsico, um ponto de estrangulamento do comércio petrolífero mundial. Além disso, conflitos prolongados na região afetam a inflação de commodities que o Brasil importa ou compete. Se a reconstrução virar um campo de batalha entre potências regionais, como na Síria, o risco é um retorno rápido aos combates, com impactos diretos no custo de vida dos brasileiros. Uma transição bem feita em Gaza é, portanto, interesse do Brasil também.

Fontes