O presidente dos Estados Unidos Donald Trump iniciou seu segundo mandato assinando uma enxurrada de ordens executivas e ameaçando tarifas de 25% sobre Canadá e México a partir de fevereiro. A medida dispara um sinal claro: com as regras comerciais sendo reescritas unilateralmente por Washington, o resto do mundo não vai mais ficar passivo. O Brasil, que assume a presidência do BRICS este ano, responde aumentando tarifas sobre 4 mil itens importados e aprofundando debates sobre moedas locais na organização. Não é coincidência: quando o comércio vira arma geopolítica, até aliados preferem fortalecer suas próprias defesas.
Durante décadas, o mundo funcionou sob uma lógica compartilhada: quanto mais livre o comércio, melhor para todos. Os EUA estabeleceram essa regra e bancaram o sistema. Trump está quebrando ambas as coisas. Suas tarifas sobre vizinhos imediatos já mexem com cadeias de produção automotiva e varejo na América do Norte, forçando empresas a calcular repassar custos para consumidores. Canadá e México, que dependem pesadamente do mercado americano, agora enfrentam a escolha: negociar com Washington ou buscar alternativas.
Enquanto isso, o Brasil enxerga na crise uma oportunidade. Ao ampliar barreiras sobre importações, o governo sinaliza que não será vítima passiva de turbulências comerciais provocadas por terceiros. A presidência brasileira do BRICS ganha, assim, novo peso: a organização que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul passa a discutir seriamente como reduzir dependência do dólar americano nas transações entre membros. Não é rejeição pura ao dólar, mas seguro contra futuros choques.
O padrão repete em escala global. Quando uma superpotência abandona a previsibilidade, países médios se mexem. China já ampliou seus fundos soberanos para comprar ouro e diminuir exposição a sanções. União Europeia discute autonomia estratégica. Canadá e México buscam diálogos alternativos. Cada movimento aparenta ser nacional, mas todos respondem ao mesmo gatilho: a regra multilateral que ordenava o sistema entrou em colapso.
Isso não significa volta ao isolacionismo dos anos 1930. Significa transição. Blocos regionais ganham força enquanto o comércio global perde fluidez. Empresas multinacionais planejam produção pensando em tarifas, não apenas em eficiência. O custo econômico real dessa fragmentação é ainda invisível, mas será pago por consumidores, funcionários e pequenas empresas que dependem de insumos importados.
Por que importa: O consumidor brasileiro verá o impacto na bomba, no supermercado e na conta de energia. Se tarifas americanas encarecarem componentes eletrônicos importados via México, o preço da geladeira, do carro e do celular sobe aqui. Ao mesmo tempo, as tarifas brasileiras sobre 4 mil itens precisam ser pagas por quem vende importado (varejista, indústria) e costumam se converter em inflação interna. O jogo agora é entre proteção da indústria local e custo de vida. A presidência brasileira do BRICS oferece ao país ferramentas diplomáticas para negociar essa encruzilhada em bloco, em vez de sozinho, mas nada garante que saia barato.
