O Reino Unido chegou a um ponto de ruptura. Na semana passada, o secretário de Relações Exteriores britânico Ed Miliband discursou na conferência do Partido Trabalhista em Liverpool e disse algo que o governo tinha evitado por dois anos: Gaza é uma "mancha na consciência do mundo", e os manifestantes que protestavam contra o apoio de Londres a Israel "tinham razão". A declaração expõe uma realidade que Londres não consegue mais esconder, apoiar os palestinos em Gaza enquanto mantém a aliança com Israel tornou-se politicamente insustentável.
A mudança de tom é real, mas superficial demais para a crise que a provocou. Miliband não anunciou uma reviravolta na política externa britânica, nenhuma suspensão de exportação de armas, nenhum reconhecimento da Palestina como Estado, nenhum corte de auxílio militar. O que mudou foi o discurso. E isso, por enquanto, só expõe a armadilha em que o governo trabalhista se meteu. Ele reconhece que Gaza é um desastre humanitário e que a população britânica discorda da posição governamental, mas não consegue abandonar a aliança estratégica com Israel sem enfrentar consequências políticas e diplomáticas imediatas.
A base trabalhista está dividida. Durante a conferência do partido, em setembro, centenas de ativistas pró-palestinos protestaram. Pesquisas mostram que 70% dos membros do Partido Trabalhista apoiam um cessar-fogo imediato em Gaza, enquanto o governo continua a vender componentes militares para Israel. Miliband tentou navegar essa tensão com a retórica de "compreender os protestos", mas essa ginástica verbal tem prazo de validade.
O dilema britânico revela uma fratura mais profunda. O Reino Unido depende dos EUA para sua segurança no Atlântico Norte (via OTAN, aliança militar ocidental). Washington, mesmo com o governo Biden menos incondicional que Trump, não quer que aliados ocidentais se afastem de Israel. Ao mesmo tempo, a população europeia, inclusive britânica, vê Gaza diferente do que a capital americana. Miliband está tentando saltar essa fenda, e não vai conseguir indefinidamente.
O que acontece agora é previsível. Ou o Reino Unido anuncia mudanças concretas de política (armas, reconhecimento diplomático), enfrentando pressão de Washington, ou mantém o status quo e perde credibilidade com sua própria população. Não há meio-termo que aguente por muito tempo. A retórica de Miliband é apenas o primeiro sinal de que essa escolha está chegando.
Por que importa: A mudança na posição britânica sobre Gaza importa para o Brasil porque afeta como os países votam em organismos internacionais como a ONU. Se o Reino Unido se aproxima de uma posição mais crítica a Israel, isso muda o alinhamento das votações sobre cessar-fogo e direitos humanitários. Para Brasília, que historicamente busca espaço diplomático próprio no Oriente Médio sem ser pressionada pelos EUA, uma Europa menos coesa atrás de Washington oferece oportunidades. Além disso, conflitos no Oriente Médio afetam o preço do petróleo e, consequentemente, o dólar e o custo da gasolina nas bombas brasileiras. Quanto mais instável a situação, mais caro fica o barril.
