Donald Trump respondeu ontem por que a Coreia do Norte pode ter armas nucleares enquanto o Irã não, e a resposta foi relativizar o arsenal norte-coreano e chamar Kim Jong Um de "amigo". A declaração levanta uma questão incômoda: se Trump aceita a bomba de Pyongyang, qual é o argumento para barrar a do Irã?
A pergunta não era capciosa. Um repórter questionou a coerência de uma política externa que pune o programa nuclear iraniano mas tolera o norte-coreano. Trump respondeu minimizando o risco das armas de Kim Jong Um, chamou-o de amigo e sugeriu que a situação não é tão grave quanto aparenta. O tom foi de diplomacia pessoal, não de preocupação estratégica.
Aqui mora o problema. Por duas décadas, os EUA construíram um argumento de que o Irã não pode ter armas nucleares porque seria desestabilizador no Oriente Médio e ameaçaria aliados como Israel e Arábia Saudita. Mas se um presidente americano consegue relativizar o arsenal de um país que já disparou mísseis e fez testes nucleares, porque tem uma relação pessoal com o líder, esse argumento fica frágil. Por que o Irã não pode ter o que a Coreia do Norte já tem, se a diferença é só uma amizade presidencial?
A diplomacia americana sinalizava regras claras: proliferação nuclear é inaceitável. Agora sinaliza outra coisa: ter a bomba é passaporte para negociar como igual. Quem já tem armas nucleares senta à mesa como amigo. Quem não tem fica sob pressão de sanções. É o oposto do que dizem os manuais de não proliferação, e é exatamente o incentivo que outros países em risco (Irã, mas também Arábia Saudita, Turquia, Egito) podem estar observando muito atentamente.
Trump tentou em seu primeiro mandato uma abordagem de aproximação com a Coreia do Norte. Agora, esse tipo de relativização da ameaça nuclear norte-coreana sugere que essa estratégia de "amizade" com Kim Jong Um continua valendo mais do que a preocupação com proliferação. O problema é que essa lógica pode virar um convite: se você chegar à bomba, também fica amigo.
O Irã está vendo isso. Os aliados dos EUA no Oriente Médio também. E qualquer país que considere desenvolver armas nucleares agora tem uma lição clara: quanto mais perto você chegar, melhor a posição de negociação. Trump não inventou essa dinâmica, mas está tornando-a explícita.
Por que importa: Para o Brasil, a questão é indireta mas real. A estabilidade do Oriente Médio afeta o preço do petróleo que o país importa (25% da energia que chega às bombas vem do exterior). Um Irã cada vez mais acuado por sanções nucleares, vendo que a diplomacia americana premia quem já tem a bomba, tem menos incentivo para negociar e mais para acelerar seu programa. Tensões maiores no Oriente Médio significam petróleo mais caro e inflação que aperta o bolso dos brasileiros. Além disso, a credibilidade americana em acordos internacionais afeta a confiança em compromissos que envolvem o Brasil, desde comércio até segurança alimentar global.
