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Sudão: a luta pelo corredor que divide o país

GEOPOLÍTICA
Sudão: a luta pelo corredor que divide o país

Um em cada cinco ataques registrados na guerra do Sudão desde abril de 2023 ocorreu em Kordofan, região que funciona como corredor vital entre o leste e o oeste do país. A concentração de combates no local não é acaso: quem controla Kordofan comanda as rotas terrestres que ligam o Darfur aos centros de poder no vale do Nilo, incluindo o acesso a portos e recursos essenciais.

A região está presa entre duas forças que se enfrentam há dois anos: o Exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido, milícia paramilitar com grande presença no interior do país. Kordofan tornou-se não só campo de batalha, mas aposta geopolítica. Quem sair derrotado dessa região perde capacidade de projetar poder além do seu território imediato. É por isso que os combates ali são tão intensos e persistentes.

A guerra sudanesa começou em abril de 2023 como disputa institucional entre a cúpula militar e escalou para conflito aberto. Desde então, dezenas de milhares de pessoas morreram e milhões foram deslocadas. Kordofan, com seus 5 milhões de habitantes originais e economia baseada em agricultura e comércio, virou zona de retaguarda contestada. As rotas comerciais que passam por lá alimentam tanto a capital Cartum quanto as regiões periféricas, o que explica por que nenhum dos lados abre mão.

O controle fragmentado de Kordofan criou um mosaico perigoso. Enquanto Cartum permanece sob domínio do Exército, as Forças de Apoio Rápido avançam pelo interior. Nesse meio caminho, há espaço para grupos menores, criminosos e facções locais explorar o caos. O resultado é uma guerra dentro da guerra, onde civis ficam presos entre diferentes atores armados e a ajuda humanitária raramente chega.

A situação piora o colapso institucional do país. Com o sistema de saúde destruído, fome generalizada e deslocamentos em massa, Kordofan virou símbolo da falência estatal sudanesa. Organizações internacionais tentam acessar a região, mas enfrentam barreiras logísticas e de segurança que tornam qualquer operação humanitária um risco extremo.

Por que importa: O Sudão é produtor relevante de ouro e petróleo, e a prolongação da guerra deixa esses recursos presos no caos. Instabilidade no Sudão costuma derramar para o Egito, seu vizinho e porta-chave do Mediterrâneo e do Canal de Suez. Para o Brasil, um Sudão desintegrado complica a dinâmica de preços de alimentos (competição africana em mercados globais fica paralisada) e intensifica pressões migratórias que ecoam em organizações internacionais onde o país tem voz.

Fontes