Faz um ano que o governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, apresentou um plano ambicioso para Gaza: prometia cessar-fogo, desarmar o grupo Hamas e iniciar a reconstrução. Um ano depois, nenhuma dessas promessas se concretizou. A violência israelense não parou e o Hamas permanece no controle da faixa, expondo o fracasso de uma aposta diplomática americana que agora mancha a credibilidade de Washington em outras frentes, como a recente declaração de vitória sobre o Irã.
O "Plano de Prosperidade para Gaza", lançado em março de 2024, previa uma série de etapas: um cessar-fogo imediato, o desarmamento progressivo do Hamas sob supervisão internacional e um pacote bilionário para reconstruir a faixa. A iniciativa visava, acima de tudo, consolidar os Acordos de Abraão, a normalização de relações entre Israel e nações árabes que Trump considerava sua maior conquista no Oriente Médio. Para isso, era preciso resolver o "problema Gaza".
O obstáculo sempre foi a intransigência das partes. O Hamas nunca aceitou o desarmamento como condição prévia, vendo-o como o fim de sua razão de ser. Israel, por sua vez, mantinha a posição de não negociar diretamente com o grupo e reservava o direito de operações militares. "Não havia base real para o plano funcionar", disse à Reuters um ex-funcionário do Departamento de Estado americano, que pediu anonimato. "Foi uma tentativa de forçar uma solução que ninguém queria de verdade."
O fracasso em Gaza tem efeito cascata. A campanha de Trump também usou a retórica de "vitória" contra o Irã, após as tensões de abril. Ao anunciar que os EUA haviam "contido" Teerã, Trump buscava projetar força. Mas os analistas veem um padrão: declarações de sucesso em políticas externas que, no terreno, não avançaram. O caos em Gaza, sem solução americana à vista, alimenta a percepção de que a influência dos EUA na região está em xeque.
Para os brasileiros, a instabilidade prolongada em Gaza tem um impacto indireto, mas concreto: eleva o risco geopolítico no Oriente Médio, uma região crucial para a oferta global de petróleo. Cada escalada de tensão mantém os preços do barril em patamares altos, o que pressiona os custos de combustíveis, frete e energia no Brasil. Além disso, a instabilidade dificulta projetos de cooperação, como a importação de gás liquefeito, que o país busca para diversificar sua matriz.
Por que importa: O fracasso do plano americano para Gaza sinaliza que o conflito não terá resolução rápida. Para o Brasil, isso significa manter a atenção em uma região que, ao menor sinal de fogo, faz o preço do diesel, da gasolina e dos alimentos subir no bolso do consumidor. A instabilidade crônica no Oriente Médio continua sendo uma das variáveis mais sensíveis para a economia doméstica.
