Forças do governo iemenita, apoiadas pela Arábia Saudita, travaram combates ferozes nos arredores da cidade de Taiz em 3 de outubro de 2026, depois que os houthis tentaram tomar a principal rota entre Taiz e Aden. O episódio marca uma escalada no que analistas já chamam de nova fase da guerra no Iêmen, um conflito que deixa de ser local para se tornar o principal campo de disputa entre Riad e Teerã pelo controle das rotas de energia do Mar Vermelho.
A guerra no Iêmen nunca foi só sobre o Iêmen. O país fica na boca sudoeste do Mar Vermelho, o corredor por onde passam os navios que saem do Canal de Suez rumo à Europa e, no sentido contrário, sobem em direção ao Golfo Pérsico. Quem controla aquele litoral tem poder de veto sobre um dos trechos mais estratégicos do comércio global. É por isso que o Irã, desde 2014, financia e arma os houthis, um grupo xiita que hoje domina o norte do país e a capital, Saná. E é por isso que a Arábia Saudita lidera uma coalizão militar contra eles desde 2015.
O que muda agora, segundo o analista Can Kasapoğlu, do Instituto Hudson, é que o confronto entre sauditas e iranianos se deslocou para além do Estreito de Ormuz, a garganta entre o Golfo Pérsico e o oceano Índico que costuma dominar as manchetes sobre petróleo. O Iêmen se tornou o novo front, e o Mar Vermelho a nova linha de frente. As batalhas ao redor de Taiz, a terceira maior cidade do país, mostram que os houthis estão tentando consolidar um corredor territorial até Aden, a principal porta de exportação do petróleo iemenita. A coalizão saudita quer impedir justamente isso.
A guerra por procuração tem nome técnico, mas funciona de maneira simples: em vez de Riad e Teerã se enfrentarem diretamente, cada lado aposta num cavalo no terreno. A Arábia Saudita armou e treinou as forças do governo iemenita reconhecido internacionalmente. O Irã fez o mesmo com os houthis, que hoje possuem mísseis de cruzeiro e drones capazes de atingir alvos dentro do território saudita. Nenhum dos dois países quer uma guerra aberta entre si; ambos querem, porém, quem dita as regras no Mar Vermelho.
Por que importa: o Mar Vermelho é a rota que conecta a Ásia à Europa sem contornar o continente africano. Quando o canal fica inseguro, as seguradoras cobram mais caro para cobrir os navios, os fretes sobem e os produtos encarecem em todo o mundo. O Brasil, que exporta soja e minério de ferro para a China e importa fertilizantes do Oriente Médio, sente o impacto direto no custo de transporte e, em última instância, no preço dos alimentos e dos combustíveis aqui dentro.
