O governo Donald Trump está mudando de postura em relação à China. Diante de uma cúpula do bloco BRICS que reuniu Pequim e Teerã e condenou abertamente as tarifas unilaterais dos Estados Unidos, Washington passou a sinalizar interesse em relações mais amenas com o rival asiático. A virada acontece num momento em que os EUA perdem espaço num mundo que caminha cada vez mais para a multipolaridade.
O ponto de inflexão foi a cúpula do BRICS, grupo que reúne potências emergentes como Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul, entre outros. No encontro, com a presença de representantes chineses e iranianos, os países membros condenaram as tarifas impostas unilateralmente pelos EUA. Foi um recado coletivo: o consenso global sobre o livre-comércio liderado por Washington rachou.
Até então, a China adotava uma postura mais cautelosa na disputa entre EUA e Irã. Pequim ajudava Teerã discretamente, nos bastidores, sem grandes declarações públicas. Mas, recentemente, o governo chinês passou a chamar as sanções americanas contra o Irã de "ilegais". O tom mudou: de apoio silencioso a crítica aberta. Isso elevou o custo político para Washington de manter uma posição de confronto simultâneo com as duas potências.
Para Trump, o recado ficou claro. Ter boas relações com Pequim se tornou mais vantajoso do que insistir na escalada tarifária, sobretudo quando os principais rivais dos EUA começam a coordenar suas vozes em fóruns multilaterais. O presidente americano percebeu que o isolamento diplomático tem um preço alto demais, mesmo para a maior economia do planeta. Ainda é cedo para preender como essa nova dinâmica vai se desenhar no médio prazo.
O cenário que se desenha é de um mundo menos centrado em Washington. Sob Trump, os EUA perderam credibilidade como árbitro do comércio e da segurança global, abrindo espaço para que potências como China e Rússia ampliem sua influência. A multipolaridade, antes um conceito acadêmico, está virando realidade nas mesas de negociação.
Por que importa: O Brasil é o maior parceiro comercial da China e depende das exportações de soja, minério de ferro e petróleo para Pequim. Qualquer reconfiguração na relação EUA-China afeta o câmbio, o preço das commodities e o fluxo de dólares que entra no país. Se Trump e Pequim chegarem a um acordo, pode haver alívio nas tensões comerciais que pressionam a economia global, o que tende a ajudar o real e a inflação brasileira. Se a disputa escalar, o Brasil fica no meio do fogo cruzado entre seus dois maiores parceiros comerciais.
