O mercado financeiro colocou um preço no medo de uma crise no Golfo Pérsico. Nesta quinta-feira, o petróleo subiu forte, as bolsas americanas caíram e o hiço entre o Brent (referência internacional) e o WTI (referência dos EUA) se abriu para US$ 12 por barril. É a maior distância entre os dois em anos, e o recado é claro: o mundo está cobrando um prêmio pelo risco de o Estreito de Ormuz ser bloqueado em meio a tensões no Oriente Médio.
O S&P 500 e o Nasdaq, os dois principais índices de ações dos Estados Unidos, recuaram na sessão. Ações de empresas de semicondutores, que já vinham descoladas do resto do mercado, desabaram. O combustível da queda foi duplo: tensões geopolíticas no Oriente Médio que elevaram o preço do petróleo, e cortes na produção americana de cru que reforçaram a pressão sobre a oferta. Investidores passaram a precificar cenário de inflação mais alta e juros mais altos por mais tempo.
O Estreito de Ormuz é a garganta por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Ele liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, e qualquer ameaça concreta de fechamento ou restrição de tráfego ali muda o cálculo de preço do petróleo global em questão de horas. Por isso o Brent, que reflete o custo do cru transportado por navio em rotas internacionais, subiu mais que o WTI, que é o petróleo extraído e consumido nos Estados Unidos. Os US$ 12 de diferença entre os dois são, na prática, o custo que o mercado atribui ao risco de Ormuz.
O segundo ingrediente da subida veio de casa: produtores americanos reduziram a extração, estreitando a oferta no mercado interno. Mesmo assim, como o WTI é menos exposto ao risco do Golfo, ele subiu menos. O resultado é um spread que funciona como um termômetro geopolítico. Quanto maior a distância entre Brent e WTI, maior o nervosismo do mercado com o que pode dar errado no Oriente Médio.
Para Wall Street, o recado é preocupante. Petróleo mais caro pressiona custos de transporte, energia e produção, o que alimenta a inflação. Com a inflação em alta, o Federal Reserve, o banco central americano, tende a manter os juros elevados por mais tempo. E juros altos pesam especialmente nas ações de tecnologia, que dependem de crescimento futuro descontado a taxas baixas. Por isso o Nasdaq caiu mais que os outros índices: os investidores estão trocando o risco da bolsa pela segurança do petróleo.
Por que importa: o Brasil importa diesel e gasolina em momentos de pico de demanda, e o preço desses derivados acompanha o Brent, não o WTI. Com o spread em US$ 12, cada barril que entra nos portos brasileiros sai mais caro. Isso pressiona os custos de frete, o preço dos alimentos no supermercado e a inflação medida pelo IPCA. Se a Petrobras repassar o aumento ao consumidor nas bombas, a pressão sobre o bolso e sobre as contas públicas cresce. Além disso, um cenário de juros mais altos nos Estados Unidos tende a puxar dólares para lá, enfraquecer o real e encarecer tudo o que o Brasil importa.
