O petróleo voltou a fluir pelo Oriente Médio, mas isso não significa que o Irã esteja perdendo a guerra nem que Donald Trump esteja perto de vencê-la. É a análise de Max Boot, historiador e analista sênior do Council on Foreign Relations (CFR), think tank americano de política externa, em artigo publicado no dia 5 de outubro de 2026. A leitura otimista de que mais barris saindo da região equivale a avanço estratégico dos Estados Unidos, segundo Boot, não se sustenta.
A guerra entre os EUA e o Irã já dura oito meses. Nos últimos tempos, o fluxo de petróleo pelo Golfo Pérsico e por rotas vizinhas voltou a crescer, o que gerou a interpretação de que a pressão americana estaria funcionando e que Teerã estaria perto de ceder. Boot discorda dessa leitura. Para ele, o aumento do escoamento de óleo é compatível com um impasse geopolítico duradouro, não com uma vitória iminente de Washington.
A lógica é simples: o Irã tem interesse em manter o comércio de petróleo funcionando porque precisa de receita para sustentar a economia e o esforço de guerra. Permitir que o óleo saia do Oriente Médio não é sinal de rendição, mas de pragmatismo. Ao mesmo tempo, Teerã não abriu mão de suas posições estratégicas no tabuleiro regional. Mais petroleiros cruzando o Estreito de Ormuz, ponto de estrangulamento por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, não equivale a capitulação.
O ponto de Boot vai contra o discurso oficial da Casa Branca. A narrativa do governo Trump é a de que a campanha de pressão máxima, com sanções e demonstrações de força militar, está destrincheirando o regime iraniano. Mas o analista argumenta que confundir fluxo comercial com colapso estratégico é um erro clássico de quem avalia conflitos apenas pelos números de exportação. Guerras não se ganham com movimento de cargueiros.
O alerta vale especialmente porque o conflito se arrasta. Oito meses de confronto direto entre uma potência nuclear e um dos maiores produtores de petróleo do mundo alteram a geopolítica global mesmo quando o comércio segue. A presença militar americana no Golfo, as retaliações do Irã e o risco permanente de escalada formam um cenário que coexiste com cada barril exportado. O óleo sai, mas a tensão fica.
Por que importa: O petróleo que sai do Oriente Médio passa pelo Estreito de Ormuz, rota por onde o Brasil importa parte considerável de seu óleo bruto. Se o conflito entre EUA e Irã voltar a escalar e o estreito for ameaçado, o preço do barril dispara no mercado internacional e chega direto na bomba de gasolina e no custo do frete no país. O fato de o fluxo estar mantido hoje não garante nada amanhã, como mostra a análise de Boot. Para o brasileiro, cada mês de impasse no Golfo é um mês de risco no bolso.
