O Japão pediu o maior orçamento de defesa desde a Segunda Guerra Mundial. Israel, mesmo em conflito, tem economia aquecida. E a Rússia segue ameaçando escalar as tensões na Europa. Três notícias de continentes diferentes revelam um mesmo padrão: guerras prolongadas estão rearmando Estados e pressionando o bolso das populações.
O Ministério da Defesa japonês divulgou, em agosto, sua proposta orçamentária para o ano fiscal de 2027: aproximadamente 9,3 trilhões de ienes, alta de 3,8% em relação ao ano anterior. É a maior solicitação de gasto militar do Japão no pós-guerra. Mais do que o número absoluto, chamam a atenção decisões recentes pouco noticiadas que sinalizam a intenção de Tóquio de reativar sua base industrial de defesa, algo que o país vinha deixando em segundo plano há décadas.
O caso de Israel é diferente, mas igualmente revelador. Apesar de anos de guerra, a economia israelense cresce impulsionada pelo setor de tecnologia, que segue atraindo investimentos estrangeiros. Porém, os custos de alimentos estão subindo e a dívida pública está aumentando. A máquina econômica funciona, mas o cidadão comum sente a inflação no supermercado. Prosperidade macroeconômica não protege o orçamento doméstico.
Na Europa, o alerta vem de quem conhece a aliança ocidental por dentro. Julianne Smith, ex-embaixadora dos Estados Unidos na Otan (aliança militar ocidental liderada pelos EUA), discute no podcast da revista Foreign Affairs os riscos de escalada russa e o futuro da parceria transatlântica. A mensagem é direta: a guerra na Ucrânia não é um conflito isolado, mas parte de uma instabilidade que obriga países europeus a aumentar seus próprios gastos militares, num ciclo que se retroalimenta.
O que conecta Tóquio, Tel Aviv e o front europeu é a lógica dos conflitos longos. Quando uma guerra se estende, os países não apenas gastam mais com armas, mas reconstroem indústrias de defesa que estavam adormecidas. O Japão mantinha gastos militares modestos desde 1945. Agora muda de postura. Israel mostra que guerra e crescimento podem coexistir, mas não sem custo para a população vizinha da base. E a Rússia empurra seus vizinhos europeus a investir bilhões que poderiam ir para saúde, educação ou infraestrutura.
Por que importa: O Brasil importa combustíveis e alimentos cujos preços são afetados por instabilidades globais. Cada novo orçamento militar bilionário na Ásia ou na Europa desvia recursos de cadeias produtivas que afetam o comércio internacional. A escalada de tensões eleva o dólar, pressiona a inflação brasileira e encarece produtos que chegam à mesa do brasileiro. Guerras que parecem distantes têm endereço no preço da bomba de combustível e no custo do arroz no supermercado.
