Olh no Mundo
Geopolítica & Economia
O Essencial de Hoje +++
Brent em US$ 105.79/bbl·Brent em US$ 105.79/bbl·
Geopolítica·3 min de leitura

Aliados armam guerra no Sudão, mas o petróleo africano dobra de tamanho até 2050

GEOPOLÍTICA
Aliados armam guerra no Sudão, mas o petróleo africano dobra de tamanho até 2050

Países aliados dos Estados Unidos estão financiando e abastecendo a guerra civil no Sudão, transformando o conflito em uma guerra por procuração com risco real de se espalhar para a vizinha Etiópia. Ao mesmo tempo, a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) projeta que a demanda de energia na África vai quase dobrar até 2050, empurrada pelo crescimento acelerado da população. O continente, onde já correm armas e sangue, está se tornando também o próximo grande campo de disputa por energia.

O cenário no Sudão é o de um país dilacerado desde abril de 2023, quando o exército regular e as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), uma milícia paramilitar, entraram em confronto aberto. O que parecia uma luta interna por poder virou palco de rivalidades externas. Segundo o Carnegie Endowment, think tank americano especializado em política internacional, atores estrangeiros simpáticos a Washington estão injetando recursos e armamento no conflito, o que o configura, na prática, como uma guerra por procuração. A grande preocupação dos analistas é que o modelo se replique na Etiópia, país vizinho que enfrenta suas próprias tensões étnicas e territoriais e que já viveu um conflito devastador na região de Tigré entre 2020 e 2022.

Enquanto isso, os números da projeção energética da OPEP contam outra história sobre o continente. A organização estima que a demanda global por energia primária vai saltar de 312 milhões de barris equivalentes de petróleo por dia para algo perto de 383 milhões até 2050, um crescimento de 23% em 25 anos. Quase toda essa alta vem de países em desenvolvimento, e a África está no centro dessa curva. Com a população do continente projetada para ultrapassar 2,5 bilhões de pessoas até meados do século, o consumo interno de petróleo e gás vai disparar. Não se trata apenas de exportar cru para a Europa ou a Ásia: é o próprio mercado africano que vai consumir cada vez mais combustível, para gerar eletridade, abastecer transportes e mover indústrias.

A combinação dos dois cenários cria uma armadilha. De um lado, o investimento em infraestrutura energética na África exige estabilidade e governança. Do outro, as guerras por procuração corroem exatamente isso. A região do Sahel, que se estende de oeste a leste do continente, já assiste a uma onda de golpes militares e instabilidade no Mali, Burkina Faso, Níger e Chade. O Sudão fica na encruzilhada entre o Sahel e o Chifre da África, uma das zonas mais disputadas do planeta. Quem controla território e infraestrutura nessa faixa tem acesso a rotas de escoamento, poços de petróleo e, agora, a um mercado interno em rápida expansão.

O paradoxo é claro: o continente que mais vai crescer em consumo de energia nos próximos 25 anos é justamente o que mais sofre com conflitos alimentados de fora. Para a OPEP, a África é a aposta de longo prazo. Para as potências que armam facções no Sudão, ela é um tabuleiro de xadrez onde cada jogada vale barris e influência.

Por que importa: o Brasil importa combustíveis e compete por investimento no setor de energia global. Se a África se tornar um grande consumidor de petróleo, a pressão sobre os preços internacionais do barril tende a crescer, e isso chega direto na bomba e na conta de luz do brasileiro. Além disso, empresas brasileiras de energia, como a Petrobras, têm interesse histórico em projetos no continente. Instabilidade e guerras por procuração complicam qualquer negócio de longo prazo, elevam o risco e, no fim das contas, encarecem a energia para todo mundo.

Fontes