A Europa corre para rearmar. Governos aumentam orçamentos de defesa, encomendam mísseis e reativam linhas de produção de munições. Mas um ex-embaixador dos Estados Unidos na OTAN, a aliança militar ocidental, alerta que toda essa corrida convencional está ignorando a fragilidade mais importante do continente: a garantia nuclear americana, na qual a Europa já não confia plenamente.
Ivo Daalder, que representou Washington na OTAN, publicou na revista Foreign Affairs um argumento direto. A Europa sabe que não pode mais contar de forma absoluta com o escudo atômico dos EUA. Mas, em vez de encarar esse risco, o continente está gastando bilhões em tanques, aviões e artilharia, como se o problema fosse apenas convencional. Para Daalder, isso é uma miopia estratégica que compromete a segurança europeia no nível mais fundamental.
A segurança da Europa repousou durante décadas sobre uma promessa: se um membro da OTAN fosse atacado, os Estados Unidos responderiam com tudo, inclusive com armas nucleares. Essa ameaça de retaliação máxima foi o que impediu a União Soviética de avançar durante a Guerra Fria. Hoje, com prioridades políticas em Washington menos previsíveis e um cálculo estratégico mais volátil, líderes europeus passaram a duvidar se o compromisso ainda vale.
A saída que Daalder propõe é um caminho do meio. França e Reino Unido, as duas potências nucleares europeias, já têm arsenais próprios. Mas essas bombas foram projetadas para proteger o território nacional de cada país, não o continente inteiro. A ideia é estender esse guarda-chuva atômico para cobrir toda a Europa, algo que eliminaria a dependência total de Washington sem obrigar cada nação a desenvolver seu próprio programa nuclear. Se vingar, a proposta pode até reparar a aliança transatlântica: com uma Europa capaz de se proteger no nível mais grave, os EUA poderiam voltar a ser parceira sem carregar sozinha o fardo de defender o continente.
Por que importa: Instabilidade militar na Europa afeta o Brasil por vias diretas. O continente é um dos maiores parceiros comerciais brasileiros, destino de soja, minério de ferro e carne. Um cenário de maior tensão militar no Atlântico Norte empurra o dólar para cima, encarece importações e pressiona a inflação aqui. A discussão nuclear europeia parece distante, mas o efeito chega na mesa do brasileiro.
