O Líbano e a Síria, dois países que há décadas vivem sob a sombra de milícias e conflitos interligados, parecem caminhar ao mesmo tempo na direção oposta. De um lado, o Hezbolá, a milícia que dominou a política e as ruas do Líbano, perde cada vez mais espaço para um Estado libanês funcional. Do outro, a Síria assinou neste domingo (18) com o Banco Mundial um acordo para criar um fundo de reconstrução e recuperação do país, devastado por mais de uma década de guerra civil. Os dois movimentos, espelhados, sinalizam que a ligueira que conectava o Irã aos seus aliados no Levante pode estar se desfazendo.
O Hezbolá nasceu nos anos 1980 como movimento de resistência à ocupação israelense no sul do Líbano, mas cresceu até se tornar muito mais do que uma milícia: virou um Estado dentro do Estado. Tinha assentos no Parlamento, controlava bairros inteiros de Beirute, mantinha arsenal militar pesado e cobrava lealdade das comunidades xiitas. Enquanto todas as outras milícias libanesas se desarmaram após a guerra civil, o Hezbolá se recusou. E com o tempo, deixou de ser um movimento de resistência para funcionar como braço armado do Irã na região, financiado e orientado a milhares de quilômetros de Beirute.
A queda de influência, porém, é real. O ex-embaixador dos Estados Unidos David Hale, em artigo publicado no portal libanês This Is Beirut, resume a virada com clareza: "O Hezbolá sabe que seu verdadeiro inimigo não é Israel; seu verdadeiro inimigo é uma alternativa libanesa de paz e de Estado." A frase captura o ponto central: quando a sociedade libanesa passou a vislumbrar a possibilidade de um governo funcional, o Hezbolá deixou de ter razão de existir como ator paralelo. O grupo, que assassinou políticos eleitos, dominou ruas à força e doutrinou crianças numa ideologia de "resistência" que só convidou mais invasão, encolhe diante de uma alternativa civil.
No outro lado da fronteira, a Síria de Bashar al-Assad dava um passo inesperado. O acordo firmado com o Banco Mundial em Bangkok, na Tailândia, cria um fundo de confiança voltado à recuperação e reconstrução síria. São bilhões de dólares que, em tese, devem financiar infraestrutura destruída, serviços públicos e a volta de deslocados. Para Damasco, que durante anos foi tratada como pária internacional, fechar esse tipo de pacto com uma instituição multilateral é um sinal diplomático forte, ainda que o caminho até a reconstrução real seja longo.
O que conecta as duas histórias é uma mesma dinâmica em marcha: o desarmamento de milícias de um lado e a reconstrução apoiada por instituições internacionais do outro. Quando o Hezbolá enfraquece, o Líbano pode finalmente funcionar como um país soberano. Quando a Síria assina com o Banco Mundial, Damasco se compromete, ao menos no papel, com regras de transparência e governança. São dois pontos de uma mesma equação: menos Estado paralelo, mais Estado institucional. O Irã, que durante anos usou esses dois países como tabuleiro, perde peças.
Por que importa: A estabilidade no Oriente Médio afeta diretamente o bolso do brasileiro. O preço do petróleo, que responde pela maior fatia do combustível na bomba, sobe quando a região mergulha em tensão. Uma redução real de conflitos no Levante tende a aliviar o risco geopolítico e, em cascata, pressionar os preços do barril para baixo. Além disso, a reconstrução síria pode abrir mercado para exportações brasileiras de aço, alimentos e insumos industriais. E quanto mais estável a região, menor a pressão migratória e de ajuda humanitária, que também acaba pesando no cenário global onde o Brasil se move.
