O Japão voltou a estudar a compra de submarinos movidos a energia nuclear, e desta vez a discussão saiu do papel. O governo da primeira-ministra Takaichi Sanae prepara para o fim de 2026 a revisão dos três documentos que orientam a política de segurança do país, e propostas para incluir novas pesquisas sobre esses submarinos já apareceram na mesa. No dia 14 de outubro, Takaichi disse ao parlamento que o governo aprofundaria uma "consideração concreta e realista" sobre o assunto. O ministro da Defesa, Koizumi Shinjiro, foi além: nenhuma opção deveria ser descartada.
O tema não é novo. O Japão examina submarinos nucleares desde 1958, quando encomendou um estudo de design do projeto. Nos anos seguintes, chegou a sondar a Marinha dos Estados Unidos sobre a possibilidade de adquirir ou operar esses navios, segundo relatos de imprensa. Nunca virou decisão. A razão é política: o país é a única nação do mundo a ter sofrido um ataque nuclear, e a energia atômica carrega ali um peso moral enorme. Submarino nuclear é uma forma de usar urânio enriquecido de modo militar, e a associação ainda gera resistência dentro do próprio establishment de defesa.
Por que a discussão reaparece agora, então? A resposta está na arquitetura de segurança da Ásia. O Japão é aliado dos Estados Unidos, e sua defesa descansa há décadas sobre a promessa americana de protegê-lo. Mas essa confiança está mais frágil do que estava. Os americanos vêm cobrando mais de todos os aliados, e o padrão de comportamento de Washington mudou. Um submarino nuclear não se compra em um ano: é um navio que passa décadas em operação e exige treinamento, estaleiros e doutrina. Quem começa a pensar nele está pensando em vinte ou trinta anos de autonomia, não no próximo orçamento.
É um movimento que se repete em outras capitais. Os países da Europa oriental passaram a armar-se com muito mais vigor depois que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022. Na OTAN, aliança militar ocidental liderada pelos Estados Unidos, a discussão deixou de ser sobre quanto os americanos protegem e passou a ser sobre quanto cada país se protege sozinho. O Japão está fazendo o mesmo cálculo do outro lado do planeta. Um submarino nuclear é o item mais visível desse recálculo: é a arma de um país que não quer depender de ninguém para patrulhar as águas ao seu redor por semanas sem sair para reabastecer.
O Japão vive um cercado geográfico particular. Fica a pouca distância da Coreia do Norte, que testa mísseis sobre o mar do Japão; da China, que amplia sua marinha a um ritmo acelerado; e da Rússia, que tem bases no Pacífico Norte e tensões territoriais com Tóquio desde a Segunda Guerra Mundial. A Marinha japonesa já é uma das mais capazes do planeta, mas opera com submarinos convencionais, movidos a diesel e baterias, que precisam voltar à superfície para recarregar. Um submarino nuclear mergulha por meses seguidos e mantém a marinha japonesa sempre no mar.
A decisão ainda não está tomada, e o caminho até ela é longo. A revisão dos documentos de segurança até o fim de 2026 pode aprovar apenas mais estudos, e não a compra. A própria história do país mostra isso: setenta anos de análises e nenhum contrato assinado. Mas a diferença agora é que a conversa deixou de ser teórica e entrou no parlamento, com a primeira-ministra e o ministro da Defesa falando em público sobre tudo o que está em mesa.
Por que importa: O Japão é uma das maiores economias do planeta e um dos países que mais dependem de comércio marítimo. Navios militares na região elevam o risco para as rotas de carga que atravessam o mar da China Meridional, por onde circula parte relevante do que o mundo compra e vende. Quando o frete naval fica mais caro, o preço do contêiner sobe, e o produto chega mais caro a países que importam, como o Brasil. Do outro lado, o Japão é parceiro comercial relevante do Brasil em alimentos e minérios, e uma região asiática mais tensa significa contratos mais difíceis de negociar. Há ainda um efeito doméstico: o Brasil tem seu próprio programa de submarino nuclear, o Álvaro Alberto, e discussões como a do Japão reacendem no país a pergunta de quando a Marinha brasileira vai contar com esse navio.
