O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse nesta quarta-feira que aceitaria um acordo de paz que congelasse a guerra na Ucrânia nas linhas de frente atuais. A declaração, relatada pelo portal Breitbart, marca a mudança mais concreta até agora da postura de Kiev, que sempre defendeu a recuperação integral do território ocupado pela Rússia. Ao mesmo tempo, a OTAN, aliança militar ocidental liderada pelos Estados Unidos, se prepara para permitir que a Ucrânia compre equipamentos por meio de uma de suas agências de compras, segundo o jornal britânico Financial Times e a agência Reuters.
As duas movimentações acontecem com o inverno se aproximando, e não por acaso. A especialista Angela Kendall-Taylor, diretora do Programa de Segurança Transatlântica do Centro de Estudos Americanos Progressistas, discutiu ao vivo na revista Foreign Policy as opções diplomáticas e de campo de batalha da Ucrânia nesta temporada. O frio endurece o terreno, dificulta as ofensivas e consome os estoques de munição dos dois lados. É a janela natural para uma pausa.
Congelar a guerra, porém, é muito diferente de rendê-la. Para entender a jogada de Zelensky, vale a imagem de quem está no jogo e escolhe parar de perder dinheiro na mesa para depois voltar com mais fichas. A Ucrânia enfrenta pressão crescente por recursos e recrutas, enquanto a Rússia mantém a ofensiva em várias frentes. Parar agora, nas linhas atuais, preserva o que foi conquistado e interrompe o desgaste diário.
Em troca, Kiev busca o que considera o ativo mais importante: garantias de rearme. É aí que entra a agência de compras da OTAN. Permitir que a Ucrânia adquira suprimentos militares por esse canal significa abrir um acesso mais rápido e previsível a armas e munições, sem depender de negociações bilaterais a cada pacote de ajuda. É o equivalente a trocar favores avulsos por uma conta-corrente.
A estratégia, portanto, tem duas faces que se complementam. De um lado, a disposição de congelar o conflito para evitar novas perdas territoriais e humanas. De outro, o esforço de blindar a defesa ucraniana para que a próxima onda de combates encontre um país melhor armado. A conta é fria: ceder incerteza hoje em troca de segurança amanhã.
A pressão externa pesa nessa conta. Os aliados ocidentais sustentam a Ucrânia há anos, com pacotes de ajuda que enfrentam desgaste político em países como os Estados Unidos. Um cessar-fogo, ainda que instável, aliviaria a pressão sobre os orçamentos de defesa europeus, que já vêm crescendo para reforçar suas próprias fronteiras.
Restam as perguntas que nenhum dos lados respondeu até agora: quais seriam os termos exatos do congelamento, quem garantiria o cumprimento e como ficariam as partes da Ucrânia ainda sob controle russo. A proposta, por enquanto, é um sinal, não um tratado.
Por que importa: para o Brasil, um cessar-fogo que se sustente tende a acalmar os preços de energia, sobretudo do petróleo e do gás, que direcionam o custo do transporte e o preço na bomba. Também ameniza a inflação de alimentos ao destravar exportações de grãos da região. Do outro lado, a reindústria militar europeia que se acelera nesse cenário disputa minerais e insumos que o Brasil pode fornecer. Menos guerra na Europa é, no bolso brasileiro, câmbio mais estável e contas um pouco mais leves.
