Israel prepara a primeira eleição desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, em disputa que vai definir o país no pós-guerra da Faixa de Gaza e o recomeço da tensão com o Irã. No mesmo momento, no sul do Iêmen, as forças do governo reconhecido internacionalmente lançaram centenas de ataques contra posições dos hutis na cidade de Taiz, e a ONU calcula que quase 260 mil pessoas já foram deslocadas. É a mesma região decidindo seu futuro com urna e arma ao mesmo tempo.
A eleição israelense foi tema de um encontro do Washington Institute, centro de estudos norte-americano especializado no Oriente Médio, no dia 16 de outubro. O analista David Makovsky, que comanda o podcast "Decision Points", conversou com especialistas israelenses para mapear o que está em jogo. Entre eles, Tamar Hermann, Yaakov Katz e Amit Segal. O debate cobre três frentes ao mesmo tempo: a guerra em Gaza, a primeira eleição após o 7 de outubro e o início da guerra de 2026 com o Irã.
O voto israelense importa porque encerra um período em que o país viveu sob governos de unidade de emergência e crises sucessivas. O eleitor decide agora quem conduz a reconstrução da segurança do país, o tratamento dos reféns ainda em cativeiro e a relação com o Irã, que entrou abertamente no conflito em 2026. Nenhum desses temas se resolve em uma legislatura comum, e por isso a disputa carrega peso tão grande para os próximos anos.
A 2.000 quilômetros dali, o Iêmen vive o capítulo mais pesado de uma guerra que já dura mais de uma década. As forças do governo iemenita atacaram centenas de posições dos hutis em Taiz, segundo um porta-voz militar, em uma ofensiva que empurrou famílias para fora das casas. A ONU fala em quase 260 mil deslocados, o maior deslocamento recente do país. Taiz, cidade estratégica no sul, já foi cercada pelos rebeldes por anos e virou símbolo da resistência do governo.
O que acontece no Iêmen não fica no Iêmen. O país fica de frente para o Mar Vermelho, um dos corredores mais movimentados do comércio mundial, e os hutis já atacaram navios na região desde 2023, em solidariedade ao Hamas. Cada episódio de tensão por ali obriga embarcações a mudarem de rota, o que aumenta o tempo e o custo de transporte de contêineres e grãos que cruzam o mundo. Um conflito local vira, assim, um freio sobre o preço das coisas em outros continentes.
Por que importa: o Brasil compra produtos da Ásia e vende para a Europa e os Estados Unidos por rotas que passam pelo Mar Vermelho. Quando os ataques no Iêmen empurram os fretes para cima, quem paga a conta é a empresa de importação e, no fim, o consumidor brasileiro. Do gás e do petróleo que chegam por mar aos produtos industrializados no prateleiro, a briga em Taiz e a eleição em Jerusalém aparecem no bolso daqui.
