Israel realizou eleições legislativas nesta terça-feira, 27 de outubro, com um debate político que vai muito além dos resultados. Enquanto os votos eram apurados, especialistas discutiam uma pergunta impensável há poucos anos: o país ainda pode ser classificado como uma democracia plena? Dois pesquisadores do Carnegie Endowment, Oded Haklai e Andrew O'Donohue, publicaram análise na revista Journal of Democracy argumentando que, sob o governo de Benjamin Netanyahu, Israel já opera como um regime de autoritarismo competitivo, com mecanismos eleitorais preservados mas com freios institucionais enfraquecidos.
O que significa isso na prática? Autocracia competitiva é um regime que mantém eleições e partidos políticos, mas que o governo no poder usa as ferramentas do Estado para se manter no comando, dificultando a atuação da oposição e da imprensa. Segundo Haklai e O'Donohue, três indicadores-chave mostram que Israel caminha nessa direção: o enfraquecimento do Judiciário, o uso da máquina estatal para beneficiar aliados políticos e a perseguição a vozes críticas dentro das instituições públicas.
O cenário de disputa eleitoral torna ainda mais relevante o resultado das negociações de coalizão. Israel tem um sistema parlamentar em que nenhuma legenda costuma vencer maioria sozinha. Isso significa que os partidos que ficarem com mais assentos precisam montar uma aliança de governo, e as condições dessa negociação podem redesenhar a política externa do país. Dalal Awd, uma das principais analistas políticas e pesquisadoras de opinião pública de Israel, participou de entrevista ao programa FP Live para discutir justamente isso: o papel da negociação de coalizão e o modo como o resultado pode reconfigurar as relações exteriores de Jerusalém.
Um dos pontos que mais chamam atenção é o efeito possível sobre a relação com o Irã. O governo Netanyahu manteve uma linha dura contra Teerã ao longo dos últimos anos, com ataques a instalações nucleares e confrontos indiretos na região. A composição da nova coalizão pode afetar essa postura, seja para endurecer ainda mais, seja para abrir espaço a algum tipo de negociação. Para o Brasil, cuja economia sente diretamente oscilações de preço do petróleo e do gás no mercado global, qualquer mudança na tensão entre Israel e Irã tem efeito imediato na bomba de combustível e na conta de energia.
O que está em jogo vai além das fronteiras de Israel. O país é um dos maiores parceiros comerciais e tecnológicos dos Estados Unidos na região, e sua política externa influencia acordos de segurança que atravessam o Golfo Pérsico. Uma virada autoritária mais pronunciada pode pressionar Washington a repensar alianças, enquanto uma vitória opositora poderia reaquecer esforços de paz. A jornada de transformação institucional que Haklai e O'Donohue descrevem, porém, não se resolve em um único ciclo eleitoral. O que acontece nos próximos meses de negociação entre partidos pode determinar se o país recua dessa trajetória ou a consolida.
Por que importa: O petróleo e o gás negociados no Golfo Pérsico chegam diretamente às bombas de combustível brasileiras e à conta de luz das famílias. Qualquer turbulência que reconfigure o equilíbrio de poder entre Israel e Irã tem o potencial de mexer nos preços internacionais de energia, afetando o preço da gasolina em São Paulo e a inflação de alimentos no Nordeste. Além disso, a forma como uma democracia histórica lida com seus próprios limites institucionais serve de referência para movimentos semelhantes em outros países da América Latina.
