O embaixador russo no Paquistão, Albert Khorev, disse que Moscou aceitaria uma iniciativa paquistanesa para mediar o conflito na Ucrânia, caso Islamabad quisesse facilitar um acordo. Na mesma fala, o diplomata ofereceu o inverso do favor: a Rússia se prontificaria a intermediar entre o Paquistão e o Afeganistão, desde que os dois países aceitassem. É a primeira vez que um emissário de Moscou trata do Paquistão, historicamente próximo de Washington e de Pequim, como potencial porta-voz de uma saída para a guerra.
As declarações foram feitas em Islamabad, no lançamento do livro Ukraine War: Beyond the Headlines, do escritor Munir Ahmed. No público estavam o senador Mushahid Hussain Sayed, o ex-diplomata Sardar Masood Khan, o general aposentado Asad Durrani e pesquisadores paquistaneses. O embaixador aproveitou o palco para dizer que a Rússia analisa com atenção propostas de países considerados amigos de Moscou para resolver o conflito, citando nominalmente o Brasil e a Coreia do Sul. Segundo Khorev, o Kremlin valoriza a posição do Paquistão sobre a guerra e levaria a sério uma proposta paquistanesa de mediação.
Por que um Paquistão, e não um país europeu? A lógica é a mesma que movimenta boa parte da diplomacia da guerra desde 2022: com as conversas diretas entre Moscou e Kiev emperradas e o Ocidente inteiro alinhado a um dos lados, as potências procuram intermediadores que falem com todo mundo. O Paquistão tem uma fronteira com o Afeganistão, mantém relações de décadas com a China e nunca entrou na sanções contra a Rússia. Esse lugar de meio-termo, que na política interna paquistanesa já incomodou aliados americanos, é exatamente o que o torna interessante para uma mediação.
O segundo anúncio, o da oferta para intermediar entre Islamabad e Cabul, expõe a economia de favores por trás da diplomacia de guerra. O Paquistão e o Afeganistão têm uma fronteira disputada e relações tensas desde que os talibãs retomaram o poder em Cabul, em 2021. Ao se oferecer como ponte ali, Moscou deixa claro que não quer apenas falar com o Ocidente: quer trocar serviços com quem está perto das crises regionais e, com isso, ampliar sua influência para além da Europa.
O que a Rússia faz aqui, portanto, é montar um tabuleiro paralelo. Enquanto os Estados Unidos e a Europa discutem sanções e ajuda militar a Kiev, o Kremlin testa quem pode entregar um canal de conversa sem custo político alto. Nomes como Paquistão, Brasil e Coreia do Sul aparecem nessa lista por uma razão prática: nenhum dos três está na trincheira ocidental, e todos têm canais abertos com lados diferentes da guerra.
É cedo para dizer se o Paquistão aceita o papel, e o próprio embaixador condicionou tudo a uma vontade de Islamabad. Mas a proposta em si já diz bastante sobre o momento da guerra: a negociação, quando vier, provavelmente não sairá de uma mesa em Genebra ou Paris. Sairá de um telefone que Moscou acha que pode ligar sem constranger ninguém.
Por que importa: A guerra na Ucrânia continua ditando o preço do petróleo e do gás no mercado mundial, e qualquer desdobramento dela mexe com a economia brasileira direto. O Brasil foi citado nominalmente pelo embaixador russo como um dos países com propostas na mesa, o que reforça o papel de Brasília como interlocutor de Moscou num momento em que poucos países falam com os dois lados. Para o bolso do brasileiro, o ponto mais concreto é outro: o Brasil importa fertilizantes da Rússia, e é esse insumo que define o custo da comida no prato. Quanto mais arrastada a guerra, mais caro o fertilizante; quanto mais aberto o canal diplomático, maior a chance de isso estabilizar.
