O petróleo voltou a circular pelo Golfo Pérsico em volume até maior do que antes da guerra, mas o preço não cedeu. As exportações de crudo da região alcançaram, na semana até 18 de outubro, uma média de 24,6 milhões de barris por dia, acima do nível registrado antes do conflito, segundo a empresa de inteligência de mercado Kpler. Ainda assim, o barril Brent, a principal referência mundial, está mais de 60% acima do patamar pré-guerra. A conta não fecha pelo lado da oferta, e é justamente esse o recado.
O que explica o descompasso é o medo. Analistas apontam que a alta contínua do petróleo reflete a ansiedade com a possibilidade de retomada das hostilidades na guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, o esvaziamento dos estoques de petróleo e o aumento do custo de transporte das saídas da região. Ou seja: o mercado não está precificando o petróleo que existe hoje, e sim o petróleo que pode faltar amanhã. Em energia, expectativa vale tanto quanto barril de fato, e o prêmio de risco embute uma guerra que pode voltar.
Vale entender por que o Golfo Pérsico pesa tanto assim. É por ali que sai boa parte do petróleo consumido no mundo, e o Estreito de Hormuz, a passagem estreita entre o Irã e a Arábia Saudita, é o gargalo por onde trafega uma fatia enorme desse volume. Quando a guerra estourou, essa rota foi ameaçada, o frete disparou e o seguro para navios tanque virou item de luxo. Hoje os navios voltaram a circular, mas com custo mais alto do que antes, e esse custo entra no preço do barril na hora de chegar ao mercado.
Há ainda o problema dos estoques. Estoque de petróleo funciona como a despensa do sistema energético: é o que está guardado para dar folga quando algo dá errado. Estoque baixo significa pouca margem de erro. Com a guerra, parte dessa despensa foi consumida para tapar o buraco da oferta interrompida, e a reposição é lenta. Enquanto a despensa não se recompõe, qualquer notícia ruim do Oriente Médio tem efeito amplificado no preço, porque não há muito colchão para absorver o susto.
É a prova de que, em petróleo, o preço não é só sobre barris. É sobre confiança, rota, seguro e prazo. A oferta física se recuperou, mas três peças continuam quebradas: a guerra ainda pode recomeçar, os estoques estão enxutos e transportar o crudo da região ficou mais caro. Enquanto isso, o mercado opera no piloto automático do medo, mantendo o Brent no alto mesmo com os tanques cheios de novo.
Por que importa: O Brasil não é grande exportador de petróleo bruto para o mercado internacional, mas compra combustíveis e derivados no mercado global, e o preço do barril na bolsa de Londres vira preço na bomba da esquina. Quando o Brent sobe, sobe o diesel que carrega a comida, a gasolina que abastece o carro e, no fim da fila, a inflação que aperta o bolso. A guerra não precisa voltar para o estrago chegar aqui; basta ela continuar sendo possível.
