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Bukele exporta sua guerra às gangues: El Salvador manda tropas ao Haiti

GEOPOLÍTICA
Bukele exporta sua guerra às gangues: El Salvador manda tropas ao Haiti

O El Salvador enviou tropas ao Haiti para combater gangues, transformando uma ofensiva que até agora era interna em operação internacional. A decisão do presidente Nayib Bukele estende ao exterior a guerra contra as pandillas que o consagrou em casa e coloca o país centro-americano, um dos menores da América, no centro da segurança do Caribe.

Bukele ficou famoso no mundo ao travar uma repressão sem precedentes contra as gangues do El Salvador. Sob estado de exceção, seu governo prendeu em massa, esvaziou as prisões e derrubou os homicídios a patamares históricos. A fórmula virou marca registrada: punição dura, mensagem direta e um presidente que se comunica como CEO de um produto que vende resultados. Nas eleições, o saldo lhe rendeu vitórias esmagadoras e a imagem de líder que resolveu o que ninguém conseguiu.

Agora esse produto ganhou mercado fora. Ao mandar soldados ao Haiti, Bukele oferece ao continente uma versão exportável do que fez em San Salvador: força militar contra o crime organizado, sem a paciência das negociações. O Haiti, onde gangues tomaram ruas, aeroportos e bairros inteiros depois do assassinato do presidente Jovenel Moïse em 2021, é o cliente perfeito. É um país sem polícia suficiente, sem governo plenamente funcional e com um vazio de segurança que ninguém conseguiu preencher.

Esse vazio tem endereço conhecido. A ONU tem histórico longo no país, com missões de paz que incluíram tropas brasileiras, mas não consegue mais conter a violência. Os Estados Unidos apostaram em uma força multinacional liderada pelo Quênia, que chegou ao Haiti sem os homens e o dinheiro prometidos. Nem a O Washington conseguiu fazer a diferença. Entra aí um governo pequeno, com disciplina militar e disposição para agir rápido.

O Haiti vira, assim, laboratório de um projeto maior: provar que o modelo salvadorenho funciona fora do El Salvador e vale como referência política na América Latina. Se der certo, Bukele amplia influência regional sem precisar de grandes gastos diplomáticos. Se der errado, um país já destruído recebe uma operação militar sem Estado por trás, e o custo humano recai sobre civis que já vivem sob o controle de gangues.

Por que importa: Para o Brasil, a onda chega por dois lados concretos. O primeiro é histórico e direto: brasileiros já comandaram a missão de paz da ONU no Haiti e o país segue atento ao que acontece ali, porque instabilidade no Caribe empurra migração e redes de tráfico pelas rotas sul-americanas. O segundo é econômico: tráfico e instabilidade regional encarecem operações de fronteira e pressionam preços e investimento no Norte e no Nordeste. Além disso, a exportação da fórmula de Bukele muda o debate de segurança na região, e o Brasil costuma ser o primeiro a ter de responder a essa conversa na própria política interna.

Fontes