Desde que o ano letivo recomeçou em Gaza, crianças têm enfrentado bombas israelenses e tiro de franco-atiradores no caminho para a escola. É o que relata a Al Jazeera English. Ir estudar virou uma das travessias mais perigosas do dia, num território onde a rotina militarizada passou a incluir o trajeto entre a casa e a sala de aula.
O perigo vem de dois lados. As bombas caem do céu; os franco-atiradores atiram do chão, de posições que enxergam as ruas por onde as crianças andam. Para chegar à escola, uma criança gazauí precisa atravessar linhas de visão de atiradores. O que em qualquer outro lugar seria um caminho de alguns quarteirões, ali se tornou uma rota de risco calculado, feita por quem ainda não entende direito o que é uma guerra.
Em conflitos armados, a escola costuma ser a primeira coisa protegida e a última a voltar depois do fim dos combates. É assim porque o que se perde de aprendizado não se recupera com facilidade: um mês de aula perdido exige meses para ser recuperado, e nem sempre é. Em Gaza, o que voltou com o calendário escolar não foi a segurança. Voltaram as aulas, e o fogo continuou no caminho.
O impacto vai muito além do conteúdo deixado de lado. Uma criança que aprende que sair de casa para estudar pode custar a vida cresce com medo gravado na rotina. O medo muda o modo como se aprende: distrai, paraliza, faz a criança querer ficar em casa. Gaz está formando, no meio dos escombros, uma geração que associa estudar a perigo de morte, e que carrega esse vínculo para a vida adulta. Uma sociedade inteira sai prejudicada quando a escola deixa de ser refúgio e passa a ser alvo, mesmo que indireto.
O custo também é econômico, ainda que pareça distante agora. Uma geração que perde anos de escola tem menos chance de conseguir emprego depois, menos formação para reconstruir o próprio país e mais dificuldade de acompanhar o mundo que segue girando sem ela. O buraco educacional aberto durante a guerra continua se abrindo mesmo quando os bombardeios eventualmente terminam.
Por que importa: O Brasil tem tradição de acolher refugiados de guerras, de sírios a famílias palestinas que já vivem no país, e participa de esforços humanitários por meio de ajuda internacional e de votações nas Nações Unidas. Quando uma geração inteira cresce sem escola numa faixa como Gaza, a conta aparece depois na forma de migração forçada, de pedidos de ajuda humanitária e de instabilidade que atravessa fronteiras. A educação destruída em Gaza não fica em Gaza: ela chega, mais cedo ou mais tarde, às portas de países que precisam lidar com as consequências de uma infância perdida.
