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Israel e Líbano: o voto israelense e o processo contra bombas do Hezbollah, duas faces da mesma crise

ORIENTE MÉDIO
Israel e Líbano: o voto israelense e o processo contra bombas do Hezbollah, duas faces da mesma crise

Israel vai às urnas nesta terça-feira, 27 de outubro, em eleições que já nascem marcadas por uma dúvida incômoda: o país ainda funciona como uma democracia plena? Enquanto isso, ao lado, o Líbano anunciou a acusação de 13 pessoas por explosivos apreendidos ligados ao Hezbollah, grupo libanês de orientação xiita e aliado do Irã. As duas notícias, distantes no mapa e no tom, mostram a mesma disputa que atravessa o Levante: instituições civis tentando se impor a partidos armados e governos sob pressão de uma guerra que não acabou.

No caso israelense, quem puxa o alarme são acadêmicos, não opositoria partidária. O pesquisador Oded Haklai, da Universidade Queen's, em Ontário, e Andrew O'Donohue, do think tank Carnegie Endowment, publicaram no Journal of Democracy, revista especializada em governos democráticos, uma análise sob o título direto: sob o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Israel se tornou um regime autoritário competitivo. O conceito não é um insulto de internet. Descreve países onde eleições acontecem, partidos disputam espaço e a imprensa existe, mas o governo no poder usa o aparelho do Estado para inclinar o jogo a seu favor, restringindo o que a oposição e a sociedade podem fazer. Segundo os dois autores, três indicadores centrais mostram que Israel está escorregando para esse modelo, e a eleição de terça é a melhor chance de frear a deriva antes que seja tarde demais.

O diagnóstico ganha peso porque Netanyahu governa há anos em meio a uma guerra de múltiplas fretes. A pressão externa vem do Irã e de seus aliados regionais, que incluem o próprio Hezbollah, ao norte de Israel. A pressão interna vem de um Judiciário que o primeiro-ministro tentou enfraquecer com uma reforma polêmica e de um eleitorado dividido entre quem vê a segurança acima de tudo e quem teme pelo equilíbrio dos poderes. O resultado é um paradoxo: quanto mais o país se sente cercado, mais forte fica a voz dos que dizem que a democracia pode esperar.

Do outro lado da fronteira, o Líbano tenta fazer exatamente o oposto, com as ferramentas que tem. O Estado libanês acusou 13 pessoas por explosivos confiscados ligados ao Hezbollah. O grupo, que além de partido tem milícia e assentos no Parlamento, chamou as acusações de injustas e afirmou que as armas seriam usadas contra tropas israelenses no sul do Líbano. A resposta diz muito sobre o problema libanês: um partido decide, por conta própria, quando e contra quem a arma será apontada, e trata a Justiça do próprio país como um incômodo. O Líbano atravessa uma das piores crises econômicas de sua história, com a moeda desvalorizada e serviços públicos em colapso, e a convivência entre Estado e milícia é parte do problema, não apenas do cenário.

O fio que liga os dois casos é o Irã e a guerra por procuração que ele alimenta no Oriente Médio. O Hezbollah recebe financiamento, armas e treinamento de Teerã, e serve de linha de frente contra Israel. Esse arranjo enfraquece o Líbano como Estado, porque coloca um grupo melhor armado que muitas instituições públicas acima da lei. Ao mesmo tempo, a ameaça que o Hezbollah representa dá argumentos aos líderes israelenses que pedem poderes amplos e ataques preventivos, em vez de debate e controle parlamentar. Guerra externa e erosão interna se alimentam, umas das outras, em uma espiral que não tem saída fácil.

Há ainda a parte prática do Hezbollah, que envenena a política e a economia libanesa. O grupo controla bairros inteiros de Beirute, opera escolas e hospitais e mantém um braço social que o Estado não consegue substituir. Isso torna qualquer tentativa de desarmá-lo um problema de sobrevivência política para quem manda no Líbano, e não apenas uma decisão de polícia. A acusação contra as 13 pessoas, portanto, é um teste: o Estado libanês está tentando mostrar que a lei vale para todos, ou vai recuar diante da reação armada.

Por que importa: a estabilidade do Oriente Médio define preços de energia no mundo inteiro, e o Brasil importa boa parte do petróleo e do gás que consome. Um Israel sem freios democráticos e um Líbano onde milícias mandam mais que o governo aumentam a chance de novos choques, que sobem o barril de petróleo e pressionam o dólar no câmbio. O brasileiro sente isso na bomba de gasolina, na conta de luz e, no fim das contas, na inflação do mercado.

Fontes