As exportações de petróleo iraniano chegaram a zero em setembro pela primeira vez em anos. A pressão americana sobre Teerã conseguiu o que parecia improvável: interromper completamente o fluxo de óleo que saia dos portos iranianos. No mesmo mês, porém, a notícia que mexeu mesmo com o mercado veio de outro continente. As refinarias chinesas pararam de exportar combustível (diesel, gasolina, querosene) para o exterior, e o barril saltou para perto de 91,50 dólares. O ponto é simples, mas crucial: não é a falta de petróleo bruto que dispara o preço, é a falta de derivados prontos para usar na bomba.
Entender essa diferença explica por que o mercado não desabou quando o Irã saiu do jogo. Historicamente, quando um grande produtor some das exportações, o preço deveria cair: menos oferta de petróleo bruto significaria menos barril disponível no mundo. Mas a lógica inverteu-se. Os estoques de crude (petróleo bruto) estão razoáveis globalmente. O que falta mesmo é gasolina, diesel e querosene já refinados e prontos para sair do porto. A China, segunda maior economia e gigante em refino, é fornecedora de combustível para mercados da Ásia e além. Quando cortou as vendas externas, criou um gargalo que os preços registram na hora.
O embargo americano ao Irã, reforçado sob administrações anteriores e mantido agora, visa enfraquecer Teerã economicamente. Mas a estratégia tem efeitos colaterais. Ao tirar o Irã do mercado de petróleo, reduz-se a oferta global de bruto, o que deveria, em tese, apertar os preços. Não foi assim porque outras pressões compensaram. A China estava segurando a produção de combustível e limitando exportações para estabilizar seu próprio mercado interno e administrar seus estoques estratégicos. Essa decisão, tomada por Pequim de forma independente das sanções americanas, tem um impacto maior na bomba do que a ausência do barril iraniano.
O paradoxo do mercado atual é que o preço não reage só ao que é produzido, mas também ao que é refinado e ao que sai para vender. Uma refinaria parada não compra barril novo. Uma refinaria que refina, mas não exporta, tira combustível de circulação. No caso chinês, as refinarias continuam operando, comprando petróleo bruto normalmente, mas não vendem derivados ao exterior. O resultado é menos combustível disponível globalmente, apesar de haver petróleo bruto. Esse desequilíbrio estrutural entre oferta de crude e oferta de derivados é o que o mercado persegue agora.
Analistas observam que a tendência pode se aprofundar nos próximos meses. Se a China mantiver as restrições às exportações de combustível e o Irã permanecer fora dos mercados internacionais, a escassez de derivados poderá pressionar preços ainda mais para cima, mesmo que haja barril em abundância. O inverso também é possível: se a demanda global esmorecer (por recessão econômica ou quedas no consumo), a ausência de petróleo iraniano perderá importância e os preços podem ceder.
Por que importa: O Brasil importa diesel e gasolina refinados. Quando o preço do barril sobe, especialmente impulsionado pela escassez de combustíveis prontos, como agora, o custo da importação sobe com ele. Mesmo que a Pré-Sal produza petróleo bruto em volumes recordes, boa parte da gasolina que abastece o carro em São Paulo vem de refinarias estrangeiras. Além disso, a gasolina em real segue o dólar. Se o barril fica em 91 dólares ou sobe mais para 95, o preço na bomba não demora a refletir essa pressão, sem contar que refinarias brasileiras também ajustam seus custos. No longo prazo, uma escalada sustentada de preços de derivados impacta inflação e, portanto, o poder de compra do brasileiro.
