A Rússia sofre suas maiores perdas territoriais do ano, mas aposta em drones novos e mais potentes para quebrar as defesas ucranianas antes que o frio congele o front e complique ainda mais uma guerra que já drena sua capacidade militar. Com o avanço terrestre cada vez mais lento e caro, Moscou mira na tecnologia como ferramenta de pressão estratégica.
Em setembro, a Rússia registrou 46 mil soldados mortos ou feridos, segundo dados do exército ucraniano, o maior número mensal de 2026. A cifra está próxima da meta ambiciosa que o presidente Zelenskyy estabeleceu em janeiro: 50 mil baixas russas por mês como incentivo para que tropas inimigas desistam. Esses números refletem uma mudança brutal na guerra: à medida que Moscou perde terreno, prefere sufocar a defesa ucraniana com enxames de drones do que investir em ofensivas terrestres que consomem soldados sem ganho proporcional.
Os drones russos funcionam como um mecanismo de desgaste. Cada máquina derrubada custa à Ucrânia uma munição de defesa aérea cara e sofisticada, enquanto o drone que explode é uma fração do investimento. É matemática militar: forçar o inimigo a gastar recursos valiosos esgotando-o lentamente. A estratégia explica por que a Rússia não abandona esses ataques mesmo quando a taxa de sucesso é baixa. O que importa é manter as defesas ucranianas sob tensão permanente, reduzindo sua capacidade de reagir a um avanço terrestre maior.
O inverno é o fator-chave. Moscou busca quebrar a resistência ucraniana antes que o frio torne qualquer operação ainda mais difícil e cara. Com temperaturas negativas, movimento de tropas fica mais árduo, linhas de suprimento ficam vulneráveis e o cansaço dos soldados piora. Se a Rússia conseguir deteriorar ainda mais a posição defensiva ucraniana até dezembro, terá tempo para regroupar e tentar ofensivas maiores quando as condições melhorarem.
A Ucrânia, por sua vez, responde acelerado o desenvolvimento de seus próprios drones e aperfeiçoando sistemas de defesa. Trata-se de uma corrida tecnológica onde máquinas baratas substituem soldados, pelo menos como primeira linha de desgaste. Zelenskyy reconhece essa realidade quando estabelece metas agressivas de baixas russas: a ideia é desgastar Moscou tanto que negociações se tornem inevitáveis, ainda que favoráveis a Kiev.
Por que importa
Uma guerra mais longa e intensa na Ucrânia pressiona preços globais de energia e alimentos. O Brasil importa fertilizantes e convive com dólar volátil em contextos de instabilidade geopolítica. Se a Rússia conseguir estender o conflito através dessa estratégia de drones, o preço do petróleo e do gás natural tende a se manter elevado, afetando o custo de produção agrícola, a cotação do dólar e, eventualmente, a inflação doméstica. Além disso, na ONU, o Brasil busca encaminhar posições de neutralidade construtiva enquanto potências ocidentais e rivais competem por apoio político em votações sobre a guerra. A tecnologia militar ditando o ritmo do conflito também reduz margem para solução diplomática rápida.
