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Mianmar tenta reviver porto fantasma em meio à guerra civil

INDO-PACÍFICO
Mianmar tenta reviver porto fantasma em meio à guerra civil

A junta militar de Mianmar anunciou planos para retomar a Zona Econômica Especial de Dawei, um ambicioso projeto de porto em águas profundas na costa do Índico que nunca saiu do papel. A novidade é que a Rússia agora aparece como parceira potencial para desenvolver infraestrutura portuária e energética na região. O desafio revela um dilema geopolítico agudo: construir economia enquanto o país enfrenta conflito civil generalizado e sanções internacionais.

A Zona Econômica Especial (uma região com regras tributárias facilitadas para atrair empresas internacionais) de Dawei foi concebida há mais de uma década como uma janela econômica para Mianmar. Localizada na costa de Andamã, ofereceria ligação marítima direta ao Oceano Índico e conexão terrestre com a Tailândia. Mesmo durante a abertura democrática de Mianmar, entre 2011 e 2021, o projeto não decolou. Houve dificuldades em financiamento, falta de segurança jurídica para investidores e, depois, a regressão autoritária com o golpe militar de 2021.

Agora a junta tenta ressuscitar o projeto. O interesse russo veio depois que sanções ocidentais isolaram Moscou, Mianmar tornou-se um dos poucos países dispostos a negociar com Rússia em infraestrutura estratégica. A ideia é transformar Dawei em um nó logístico para escoamento de energia e comércio, especialmente pela rota marítima que conecta Ásia do Sul com Ásia do Sudeste.

O problema é estrutural: Mianmar está em colapso institucional. A guerra civil entre forças militares e grupos armados de resistência controla vastas áreas do país. A Tailândia, vizinha imediata e parceira natural de Dawei, enfrenta desafio duplo: depende da estabilidade em Mianmar, mas não consegue fazer acordos de longo prazo com um governo à beira do colapso. Empresas tailandesas e internacionais historicamente fugiram do projeto por incerteza regulatória e de segurança, problemas que não desapareceram.

A aposta russa muda o tabuleiro apenas parcialmente. Moscou tem recursos limitados por suas próprias sanções e oferece financiamento, não expertise em construção de portos comerciais de escala global. Pequim, que seria o investidor natural (como fez em Bangladesh e Sri Lanka), mantém distância estratégica da junta porque a guerra civil desestabiliza sua bacia de influência. Sem capital ocidental, tailandês em volume e chinês confiante, Dawei segue como zona econômica no papel.

Por que importa: Rotas marítimas pelo Índico concentram parte do comércio Brasil-Ásia. Se Dawei funcionasse, reduziria custos de passagem de navios entre portos brasileiros (Santos, Rio Grande) e mercados asiáticos, afetando preço de fretes de soja, minério e celulose. Uma Mianmar fraturada mantém essas rotas mais caras e imprevisíveis. Além disso, a incapacidade da comunidade internacional de estabilizar Mianmar sinaliza que mesmo projetos de infraestrutura de bilhões de dólares fracassam quando o Estado desaparece, uma realidade que importa para qualquer país emergente pensando em integração comercial global.

Fontes