A Índia declarou que está pronta para contribuir na resolução do conflito na Ucrânia, e a Rússia agradeceu oficialmente a disposição de Nova Délhi. Ao mesmo tempo, o governo de Narendra Modi acelerou a aproximação com Israel, mesmo enquanto aliados tradicionais do país se distanciam do premiê Benjamin Netanyahu. A manobra mostra como a maior democracia do mundo navega a nova ordem global sem escolher um lado fixo.
O Kremlin não escondeu a gratidão. Um assessor-chefe do presidente Vladimir Putin disse, na quarta-feira (7), que a Rússia é grata a Nova Délhi pela vontade de ajudar a resolver o conflito ucraniano. O gesto indiano faz sentido quando se lembra que Rússia e Índia têm laços que datam da Guerra Fria: Moscou foi o principal fornecedor de armas de Nova Délhi por décadas, e o comércio bilateral disparou desde a invasão da Ucrânia, em 2022, impulsionado pelas compras indianas de petróleo russo com desconto.
Na outra frente, Modi optou por reforçar os vínculos com Israel num momento em que Tel Aviv enfrenta crescente isolamento diplomático por causa da guerra em Gaza. Países europeus que antes mantinham relações calorosas com Netanyahu passaram a cobrar cessar-fogo e condenar a escalada militar. A Índia, porém, caminhou na direção contrária. O governo Modi enxerga em Israel um parceiro estratégico em defesa, tecnologia e agricultura, além de um aliado contra o que Nova Délhi classifica como ameaças compartilhadas do terrorismo.
A postura indiana não é ingenuidade nem contradição. É cálculo. Modi sabe que a Índia depende da Rússia para equipamento militar e energia barata, mas também depende de Israel para sistemas de vigilância, drones e tecnologia agrícola. Em vez de se alinhar a um bloco, Nova Délhi tenta extrair vantagens de todos. A oferta de mediação na Ucrânia, por exemplo, projeta a Índia como potência pacificadora no tabuleiro global, papel que Modi quer consolidar para reforçar a candidatura da Índia a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Por que importa: a diplomacia indiana afeta diretamente o bolso brasileiro. A Índia é um dos maiores compradores de petróleo russo, o que ajuda a manter o crude russo circulando no mercado global e segura, de certa forma, os preços internacionais. Se Nova Délhi mudar de posição e reduzir as importações de Moscou, o barril pode subir e a gasolina no Brasil acompanha. Além disso, a Índia é concorrente direta do Brasil na exportação de soja, açúcar e carnes. Quanto mais forte Modi sai dessa manobra diplomática, mais influência comercial a Índia acumula nos mesmos mercados que o Brasil disputa.
