Olh no Mundo
Geopolítica & Economia
O Essencial de Hoje +++
Brent em US$ 111.26/bbl·Brent em US$ 111.26/bbl·
Oriente Médio·3 min de leitura

Guerra no Irã já custa mais de 47 bilhões de dólares aos EUA

ORIENTE MÉDIO
Guerra no Irã já custa mais de 47 bilhões de dólares aos EUA

O Pentágono, o Ministério da Defesa americano, estima que a guerra contra o Irã já custou mais de 47 bilhões de dólares aos Estados Unidos em gastos diretos, segundo cálculo divulgado pela Reuters. Mas a conta para os americanos não termina aí. O choque no preço do petróleo gerado pelo conflito derrubou mais 160 bilhões de dólares no bolso dos consumidores dos Estados Unidos por causa da inflação de combustíveis, de acordo com o CREA, um observatório europeu de energia e clima. Só o impacto americano representa boa parte dos 468 bilhões de dólares de inflação de combustíveis que o mesmo estudo calcula para o mundo inteiro.

Os dois números medem coisas diferentes, e é aqui que a história ganha corpo. O primeiro é a conta do governo: tropas, equipamentos, deslocamentos de frota, tudo que uma operação militar consome e que o Departamento de Defesa soma em sua estimativa. O segundo é a conta da população, e ele vem de um efeito indireto. Quando a tensão no Golfo Árabe sobe, o medo de um risco para a navegação no Estreito de Ormuz empurra o preço do barril de petróleo para cima. E quando o barril sobe, sobe o combustível na bomba em todo lugar do planeta.

O Estreito de Ormuz, entre o Irã e Omã, é um dos pontos mais sensíveis do comércio mundial de energia: por ele passa boa parte do petróleo e do gás líquido produzidos no Golfo. Qualquer ameaça à navegação ali funciona como um imposto global cobrado na bomba de gasolina, mesmo que o produto jamais tenha tocado a água do golfo. É por isso que uma guerra com epicentro no Oriente Médio aparece no cartão de crédito de alguém em Houston ou em Chicago.

A comparação entre as duas contas mostra uma assimetria que poucos notam. Os 47 bilhões de dólares do esforço militar são pagos pelo orçamento federal dos Estados Unidos, sob controle do governo e do Congresso. Os 160 bilhões de dólares em combustível mais caro são pagos, parcela por parcela, por milhões de famílias, empresas de transporte e companhias aéreas. O segundo número é quase quatro vezes maior que o primeiro, e não cabe em nenhuma votação orçamentária: ele chega como preço na bomba, conta de energia e frete embutido no preço das coisas.

O fato de os Estados Unidos figurarem como o país mais atingido, apesar de serem hoje um grande produtor de petróleo próprio, tem uma explicação simples: consumo. Os americanos consomem mais combustível per capita do que quase qualquer outro povo, dirigem mais, movimentam mais cargas por estrada e têm preços de combustível que repassam o mercado internacional com pouca trava. Onde o barril mexe, a economia sente. O estudo do CREA coloca os Estados Unidos na liderança do ranking de dano inflacionário justamente por esse tamanho, não por maior vulnerabilidade de abastecimento.

O quadro também explica por que os custos de guerras modernas raramente cabem nas manchetes iniciais. O anúncio de uma operação militar vem com números de mísseis e de alvos atingidos. A conta chega meses depois, espremida entre o preço do diesel, o insumo da agricultura e a inflação dos serviços de entrega, que é onde o corte de gasolina e de diesel pesa primeiro.

Por que importa: O Brasil exporta petróleo, mas refina e importa combustível: parte relevante do diesel e da gasolina consumidos aqui acompanha o preço internacional. Quando o barril dispara por causa de uma guerra no Golfo, o custo do frete sobe, e o frete aparece no preço da comida, do material de construção e do transporte urbano, pressionando a inflação medida pelo IPCA no mês seguinte. Guerra longe vira conta perto de casa, e quem paga essa parcela do choque não é o governo americano: é o bolso do consumidor, incluindo o brasileiro.

Fontes