Três semanas de cerco a Taiz, a terceira maior cidade do Iêmen, dobraram os preços dos alimentos e reduziram as famílias ao essencial, segundo um mapeamento da rede Al Jazeera. A cidade está cercada por forças rebeldes hutis e milícias rivais, e o bloqueio às estradas e mercados transformou o dia a dia dos moradores numa corrida por comida e combustível.
Taiz fica no sudoeste do Iêmen e é um dos principais centros urbanos do país, com universidades, hospitais e um comércio que abastece a região. A cidade vive cercada desde os primeiros anos da guerra no Iêmen, que enfrenta os hutis, movimento armado apoiado pelo Irã, contra o governo iemenita reconhecido internacionalmente e seus aliados. Nesta rodada, o cerco apertou de novo e as consequências apareceram rápido nas feiras e nos mercados.
O bloqueio funciona como uma torneira fechada sobre o abastecimento. Com as estradas controladas, poucos caminhões entram, a oferta cai e o preço sobe. Quando a mercadoria escasseia, a primeira coisa que muda no prato das famílias é a qualidade: carne, fruta e leite saem, e sobram o básico. Familias passam a vender pertences para comprar comida, e o dinheiro rende cada vez menos.
O que torna Taiz um caso emblemático é o uso da fome como ferramenta de guerra. Cerco não é efeito colateral, é estratégia: ao cortar o caminho dos alimentos, um lado pressiona o outro a ceder, e a população fica no meio. No Iêmen, esse mecanismo já aparece em várias cidades, mas raramente com a visibilidade que o drama merece.
É justamente aí que está o contraste mais duro. O mesmo grupo hutio que ajuda a manter Taiz bloqueada também é responsável pelos ataques a navios no Mar Vermelho, ao lado. Esses ataques derrubaram tráfego marítimo, ocuparam manchetes mundo a fora e fizeram governos enviarem frotas militares para a região. O cerco de Taiz, embora continue matando devagar, recebe muito menos atenção. A guerra que mexe com a economia global virou notícia; a guerra que castiga os civis iemenitas ficou de lado.
Por que importa:
O Mar Vermelho é uma das rotas que ligam a Ásia à Europa, e navios que evitam a área precisam dar a volta, o que encarece o frete e atrasa a entrega de mercadorias. Quando o custo do transporte sobe, ele aparece no preço das coisas importadas, do celular ao insumo agrícola, e alimenta a inflação no bolso do brasileiro. O ponto é que o Iêmen virou fonte de tensão global por causa do mar, enquanto a cidade de Taiz queima por causa da terra. Para quem vive no Brasil, o cerco mostra como a mesma guerra produz dois efeitos diferentes: um chega pelo preço das coisas na prateleira, o outro quase não chega, e é justamente o que mais devia incomodar.
