Centenas de deslocados começaram a voltar para Cartum, capital do Sudão, depois de meses longe de casa. A cidade foi uma das primeiras atingidas e uma das mais devastadas pela guerra entre o exército sudanês (SAF, na sigla em inglês) e as Forças de Suporte Rápido (RSF), o grupo paramilitar que disputa o poder com o governo. O retorno acontece agora porque as forças do exército ganharam território nas últimas semanas e empurraram os combates para fora de parte importante da cidade.
O resultado é uma cena dura: gente voltando para bairros onde não há água, eletricidade nem serviços de saúde funcionando. Cartum ficou sob fogo desde o começo da guerra, em abril de 2023, e recebeu os ataques mais pesados durante meses de luta urbana. Casas, hospitais e pontes saíram quebrados. Quem chega de volta encontra, muitas vezes, só o esqueleto do que era a própria casa.
O retorno é, ao mesmo tempo, uma notícia boa e um problema novo. Boa porque sugere que parte do centro da capital deixou de ser campo de batalha. Problema porque a cidade não tem como receber de volta essas famílias: sem rede de água, sem luz, sem escolas, sem mercado funcionando direito. A ajuda humanitária já atendia milhões de deslocados espalhados por todo o Sudão, e agora precisa cobrir também quem está voltando para o que restou de Cartum.
A guerra sudanesa já é considerada uma das maiores crises humanitárias do mundo. Cerca de dois anos de confronto entre SAF e RSF jogaram milhões de pessoas para fora de casa e paralisaram a economia de um país que é um dos mais pobres da África. Cada volta para a capital acrescenta uma conta nova: reconstruir moradias, reabrir hospitais, religar redes de energia e garantir comida num lugar onde tudo isso foi destruído.
Por que importa: guerra longa e cidade em ruínas viram fila de refugiados, aperto de gente na fronteira e pressão sobre preços de comida e energia no mundo inteiro. Para o brasileiro comum, isso aparece no bolso por dois caminhos. O primeiro é a conta do mercado: quando produção e transporte de grãos e combustíveis sofrem por conflitos em outras regiões, o preço na prateleira e na bomba sente. O segundo é a pressão migratória, que cresce globalmente e muda as rotas e as políticas de fronteira do país. A guerra em Cartum está longe geograficamente, mas o custo dessa destruição chega até o Brasil.
