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Crise no Pentágono corrói confiança

GEOPOLÍTICA
Crise no Pentágono corrói confiança

Mais da metade dos militares americanos em atividade quer sair da força antes do tempo, e a razão é a mesma: a sensação de que as Forças Armadas dos Estados Unidos estão virando peça de briga política. É o que mostra uma pesquisa divulgada pela Military.com no domingo (2), que encontrou 53% dos soldados em serviço dizendo que pretende se desligar mais cedo justamente porque a instituição está se politizando demais. O dado cai no meio de um debate público feroz sobre a chefia do Pentágono e expõe um problema que quase ninguém enxerga de fora: o desgaste interno do Exército americano.

Os números não vêm sozinhos. A mesma apuração, baseada em levantamento da organização de veteranos Common Defense Civic Engagement feito em setembro, mostra que 79% dos veteranos e militares acham que a política e a sociedade estão deixando de lado as famílias das Forças Armadas. Ou seja, o descontentamento não é só de quem ainda está fardado. É uma percepção generalizada de abandono, que nasce dentro da caserna e chega até quem já saiu dela.

Essa erosão ganhou nome próprio na última semana. Max Boot, analista de relações internacionais, publicou uma coluna no Washington Post argumentando que o secretário de Defesa, Pete Hegseth, precisa sofrer impeachment ou ser demitido antes de causar mais danos à instituição. A pesquisa, na visão dele, confirma a tese. O ponto não é o destino de um nome só: é que a disputa pela liderança militar americana virou assunto de primeira página, e o custo aparece na fila de quem quer sair.

É preciso entender o que está em jogo. Um Exército depende de três coisas básicas: soldados bem pagos e bem treinados, equipamento pronto e, acima de tudo, convicção de que a missão vale a pena. Quando 53% dos profissionais querem embora, o Estado perde gente treinada custosa, gasta dinheiro formando substitutos e, o pior, perde coerência. Não dá para sustentar uma guerra ou uma operação no exterior com tropas que estão olhando o relógio para sair.

E é aqui que a conta vira global. Os Estados Unidos mantêm compromissos militares espalhados pelo mundo, da Europa ao Oriente Médio, com a Ucrânia como ponto mais sensível. Um Exército em crise interna tem menos margem para sustentar essas frentes ao mesmo tempo. A dificuldade americana de manter o apoio a Kiev, por exemplo, não vem só de votações no Congresso ou de eleições: vem também de uma casa militar que está perdendo gente e confiança por dentro. É a causa silenciosa por trás do desconforto de aliados e adversários.

Por que importa: quando a maior potência militar do mundo engasga, a tensão sobe em vários lugares ao mesmo tempo e o preço da energia responde. O petróleo é cotado em dólar, e incerteza geopolítica costuma empurrar o câmbio para cima, afetando a importação de produtos e o que aparece na nota do supermercado. O Brasil não envia tropas para esses conflitos, mas sente o reflexo na bomba de combustível, nas tarifas de energia e na inflação do dia a dia. Uma confiança corroída dentro do Pentágono, portanto, acaba mexendo no bolso de quem está em São Paulo ou no Recife.

Fontes