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Putin ameaça, Europa se rearmar: quem estaria pronto numa guerra?

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Putin ameaça, Europa se rearmar: quem estaria pronto numa guerra?

O presidente russo, Vladimir Putin, declarou numa coletiva em Moscou, na quinta-feira, que a Rússia está "pronta" para uma guerra com a Europa. Ao mesmo tempo, insistiu que Moscou não quer essa guerra. A frase em duas partes é o jogo inteiro: mostra a força e evita o ônus de começar o conflito. Para Tsiporah Fried, pesquisadora convidada sênior do Instituto Hudson, nos Estados Unidos, a fala precisa ser lida como parte de uma estratégia de coerção do Kremlin, não como anúncio de um plano de invasão amanhã.

A pergunta que a frase abre é direta: se a retórica virar ação, a Europa consegue responder sozinha? Fried examina justamente isso, em artigo publicado pelo Atlantic, e conclui que o continente tem fragilidades industriais, militares e sociais que a ameaça expõe. Em outras palavras, o problema europeu não seria falta de vontade política. Seria falta de capacidade: fábricas de armação encolhidas, exércitos pequenos e uma população pouco acostumada a pensar em guerra.

Fried também aponta que a categoria usada para entender os conflitos recentes ficou velha. Durante anos, os especialistas falaram em "guerra híbrida", um tipo de confronto que fica abaixo do limiar da guerra declarada: ciberataques, desinformação, sabotagem e soldados sem uniforme. O avanço russo nesse terreno, somado à anexação da Crimeia em 2014, fez a Europa se preparar para um conflito cinzento e gradativo. Mas quando o presidente russo diz em voz alta que está "pronto" para guerra, o cenário deixa de ser cinzento. O Kremlin trocou o blefe ambíguo pela ameaça explícita, e o velho manual europeu perdeu utilidade.

A estratégia de coerção tem um efeito prático: obriga a Europa a gastar. É por isso que o rearmamento deixou de ser assunto de especialista e virou decisão de governo. Fabricar mais tanques, mísseis e munição exige fábricas que foram fechadas décadas atrás, gente treinada e contratos de longo prazo. É o tipo de aposta que só se faz quando se acredita que a ameaça é real. A fala de Putin, ao tirar a guerra do campo da hipótese, empurra exatamente essa decisão.

Resta a parte mais difícil: a guerra, se vier, não será só de armas. Seria também de energia, de comida e de ânimo das populações. A Europa precisa de coesão interna para sustentar um esforço de defesa por anos, e Fried coloca a fragilidade social ao lado das outras duas. Um continente dividido, com bolhas de opinião simpáticas ao Kremlin e com cidadãos resistentes a cortes no orçamento, enfrenta um desafio que não se resolve comprando armamento.

Por que importa: O Brasil está longe da fronteira russa, mas não longe do estrago. Uma guerra na Europa mexe com o preço da energia e da comida no mercado mundial, e esses custos chegam ao país como dólar mais caro e inflação na gôndola. Se a retórica de Putin virar ação, a conta brasileira começa a ser paga no bolso, antes mesmo de qualquer palavra sobre alianças militares.

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