Os Estados Unidos vão colocar Rússia e Ucrânia na mesma mesa em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, nos dias 10 e 11 de novembro, para discutir o fim da guerra de Moscou contra Kiev, acordos de segurança para o período pós-guerra e a redução das tensões. A informação foi dada por um alto funcionário norte-americano à Reuters na segunda-feira. É a primeira vez desde fevereiro que os EUA tentam reunir os dois lados diretamente, antes que o inverno chegue e congele qualquer avanço.
A data não é casual. O último encontro de paz mediado pelos EUA aconteceu em fevereiro e morreu ali: poucas semanas depois, Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra contra o Irã, e a diplomacia da Ucrânia ficou engavetada. Agora os negociadores americanos voltam à carga, com um prazo declarado: romper o impasse antes do inverno fechar as estradas e paralisar a maioria das operações militares na frente leste.
A pauta tem três eixos que se ligam. Segurança no período pós-guerra, ou seja, o que garante que Moscou não volte a avançar depois que um armistício for assinado. A desconflitação, que significa reduzir ataques e movimentos de tropa para evitar que qualquer acordo vire pólvora antes da assinatura. E as humanitárias, que envolvem prisioneiros e civis presos no fogo cruzado. Sem esses três pilares, qualquer tratado de paz vira papel molhado.
É aqui que entra a escolha da sede, que não é neutra. Abu Dhabi não foi escolhido por acaso: os petromonarcas do Golfo se consolidam como mediadores justamente porque mantêm canais abertos com os dois lados. Os Emirados têm relações comerciais e diplomáticas com Moscou, recebem turistas e capitais russas desde o início da guerra, e ao mesmo tempo são parceiros militares de longa data de Washington. Um país que fala com os dois lados pode sentar os dois na mesma sala, coisa que Brasília, Pequim ou Bruxelas não conseguem fazer sem fechar uma porta.
A Rússia também tem interesse em sair da guerra com uma saída digna. A economia moscou vive de petróleo e gás, e a guerra prolongada pressiona o orçamento, o rublo e o próprio mercado energético. Para Washington, a conta é diferente: o gasto militar e a paciência política com a guerra têm data de validade, e cada mês de impasse custa bilhões de dólares e capital diplomático. A Ucrânia, por sua vez, precisa de garantias concretas de que um cessar-fogo não é só uma pausa para o próximo ataque.
Por que importa: o petróleo e o gás russo seguem circulando pelo mercado global apesar das sanções, e qualquer notícia de paz ou de escalada mexe com o preço do barril em segundos. Quando o barril sobe, o diesel sobe na refinaria, e o frete do inverno agrícola fica mais caro. Isso aparece no supermercado e na bomba de São Paulo, que já carrega imposto e logística próprios. Um avanço real em Abu Dhabi tende a tranquilizar o preço; um fracasso, o contrário.
