O Brasil assume a presidência do BRICS+ este ano e coloca na mesa uma proposta ambiciosa: criar um mecanismo de compensação financeira entre os membros do bloco que permita transações comerciais sem passar pelo dólar norte-americano. Simultaneamente, o país retoma as negociações comerciais com a União Europeia após 25 anos de estagnação, buscando abrir novos mercados e reduzir sua dependência da moeda dos EUA.
Os dois movimentos revelam uma estratégia dupla. De um lado, o Brasil tenta construir alternativas de financiamento dentro do BRICS+, grupo que inclui China, Índia, Rússia e África do Sul. Um sistema de compensação funcionaria assim: quando um exportador brasileiro vende para a China, em vez de receber em dólares e depois converter, a transação seria liquidada em reais convertidos para yuan por meio de uma câmara de compensação. O resultado é menos exposição às flutuações do dólar e custos menores com a conversão.
Do outro lado, o acordo com a UE representa uma abertura tradicional de mercados. As negociações avançaram em pontos-chave após quase três décadas travadas, especialmente em temas de propriedade intelectual e normas ambientais. Um acordo entre o Mercosul e a UE criaria a maior zona de livre-comércio do mundo, com acesso direto da indústria brasileira a 450 milhões de consumidores europeus.
O movimento não é isolado. Enquanto os EUA mantêm pressão sobre aliados na OTAN e enfatizam a primazia do dólar em transações internacionais, blocos como o BRICS+ buscam criar espaços de negociação menos dependentes dessa moeda. A China, maior economia do bloco, tem interesse direto em reduzir a influência norte-americana. O Brasil, historicamente menos ideológico que outros membros, busca o pragmatismo: alternativas de financiamento com a China e a Índia, mas sem romper com o Ocidente.
Os detalhes ainda estão sendo desenhados. Um mecanismo de compensação funciona apenas se houver volume significativo de trocas entre os membros, e nem todos os países do BRICS+ têm interesse ou capacidade de participar com força. O acordo com a UE, se finalizado, levaria anos para uma implementação total.
Por que importa: Empresas brasileiras gastam bilhões anualmente convertendo reais em dólares para importar insumos ou pagar dívidas em moeda estrangeira. Quanto menos essa conversão for necessária, mais barato fica o custo para as indústrias, o que pode diminuir os preços no supermercado e no posto de combustíveis. Um acordo com a UE abre mercados para o agronegócio, a indústria de máquinas e os bens de consumo brasileiros, potencialmente gerando empregos. Ao mesmo tempo, reduzir a dependência do dólar norte-americano diminui o risco de o país sofrer punições econômicas em caso de conflitos geopolíticos maiores.
